Joinville: duas empresas responsáveis pelo serviço desde 1973

Reportagem: Thiago Gomes e Acires Dias

Joinville é a maior cidade de Santa Catarina, com quase 600 mil habitantes segundo projeção feita pelo IBGE para 2021. Duas empresas são responsáveis pelo transporte público no município:  a Transtusa e a Gidion. 

Apesar das duas empresas operarem com o transporte público em Joinville desde os anos 1960, apenas em 1973 elas participaram e ganharam uma concessão feita pela administração pública. A partir daquele momento, as empresas assumiram, de forma oficial e pelo prazo estipulado inicialmente de 15 anos, o transporte público da cidade. 

Mas elas não chegaram a cumprir o contrato na sua integralidade. Em 1978, a concessão do transporte público foi renovada sem licitação por mais 15 anos. O mesmo aconteceu em março de 1988. 

Porém, a nova Constituição Brasileira, aprovada em setembro daquele mesmo ano, obrigou a realização de licitações para a contratação de serviços públicos. Apesar desta exigência, novas concessões não foram realizadas no município.

Atualmente, a prefeitura possui um contrato de prestação de serviços regido por leis municipais, algo que nunca foi renegociado. O que mudou, nas últimas décadas, foi apenas o valor da tarifa. Para operarem em Joinville, as empresas não dependem uma da outra. A Transtusa é a responsável pelo serviço na região Norte da cidade, enquanto a Gidion atende quem mora e transita na região Sul do município.

Serviço atende, em média, 85 mil pessoas por dia – antes da pandemia, eram 130 mil

Atualmente, Joinville possui 4.700 horários de ônibus, número que foi reduzido em comparação a 2019, quando a cidade tinha 7.600 horários. A operação, que conta com 198 linhas – ou seja, uma média de 24 horários por linha a cada dia – ocorre das 4h30 até as 23h normalmente. Em dezembro, esse horário será estendido até 0h30 por conta dos eventos natalinos na cidade e pela maior circulação de pessoas por causa das compras de Natal. 

Atualmente, cerca de 85 mil pessoas utilizam o transporte público coletivo joinvillense, número bem menor se compararmos com o número de usuários no período pré-pandemia, quando a cidade contava com a média de 130 mil usuários por dia. 

Mesmo que o sistema volte a operar com os números pré-pandemia, é inegável a redução no número dos usuários que utilizam ônibus na cidade. O recorde no número de passageiros do sistema foi registrado em 2005, quando cerca de 200 mil pessoas utilizam os ônibus para se deslocar na cidade. 

No final de 2021, cerca de 85 mil usuários utilizavam o transporte público de Joinville por dia – bem abaixo do número pré-pandemia, de 130 mil usuários. Crédito da imagem: Prefeitura de Joinville/Divulgação/Nosso TAL

Prefeitura quer lançar nova licitação até o final de 2022

Em 2015, a prefeitura de Joinville fez a última pesquisa para saber a opinião dos usuários a respeito da qualidade do transporte coletivo da cidade. Na ocasião, 90% dos entrevistados aprovaram o sistema público de locomoção de acordo com a Secretaria de Infraestrutura Urbana de Joinville. 

A administração pública municipal diz que não disponibiliza subsídios para a Trantusa e a Gidion. Assim, as passagens de ônibus pagas pelos usuários é a principal fonte de recursos para as empresas operarem o sistema e lucrarem com ele. 

Paulo Mendes Castro, diretor executivo da Secretaria de Infraestrutura Urbana de Joinville, afirma que o governo de Joinville já estuda como lançar uma nova licitação para o transporte coletivo da cidade. A expectativa é que este processo seja finalizado até o final de 2022. 

De acordo com Castro, a prefeitura vem buscando formas de melhoras a qualidade dos serviços de transporte prestados. Uma das medidas tomadas foi investir em faixas exclusivas de ônibus, algo que aumentou de 9 km/h para 23km/h de velocidade média dos veículos coletivos.

Sistema funciona sem cobradores

Apesar de Joinville não ter registro greves ou CPIs relacionadas ao transporte coletivo, a cidade possui alguns impasses envolvendo o sistema. Os usuários do serviço discutem, entre outras questões, sobre a necessidade de o sistema ter cobradores dentro dos ônibus. Isso porque, atualmente, o sistema funciona sem eles, com os motoristas sendo os responsáveis pela cobrança da tarifa.

Sem os cobradores, além de cobrar as tarifas, os motoristas ficam responsáveis por resolvem problemas que ocorrem ao longo do dia, como catracas que travam ou máquinas que validam o cartão e que podem prendê-los, não permitindo que outros passageiros consigam validar seus bilhetes para seguirem viagem. 

Em horários de pico no trânsito, situações como estas atrapalham o fluxo dos ônibus, já que os condutores perdem tempo resolvendo problemas e cobrando as passagens. 

Usuários protestam pedindo melhorias nos ônibus e nos terminais

De acordo com dados fornecidos pela Secretaria de Infraestrutura do município, os veículos mais novos em circulação no sistema foram adquiridos em 2019. Esses são alguns dos veículos que operam com ar-condicionado. Ao todo, como citamos antes, Joinville possui 198 linhas de ônibus. A passagem cobrada dos passageiros é de R$ 4,75.

Graziela Tillmann é jornalista formada pela Faculdade Ielusc, em Joinville. Ao longo do curso, enquanto fazia a graduação, ela morou em Joinville e utilizou o transporte público diariamente. 

“A única melhoria feita pela Prefeitura a favor do transporte público são as faixas exclusivas, que contemplam a região central. Em bairros mais afastados, as ruas não possuem a faixa de ônibus”, observa. Para ela, o transporte público de Joinville é precário, tanto em relação à frota que circula pela cidade quanto pela condição dos terminais. 

A maior parte dos ônibus têm mais de 10 anos de uso e estão bem desgastados. Muitas vezes as catracas e as máquinas de cartão travam, segundo Graziela. Em 2018, a frota recebeu alguns ônibus com ar-condicionado, mas esses veículos operam em apenas duas linhas. Os terminais têm problemas estruturais, visíveis através de diversas goteiras quando chove na cidade.

A maioria dos protestos feitos em Joinville são organizados por servidores da saúde, da educação e pelos movimentos sociais. O Movimento Passe Livre (MPL) costuma fazer protestos anuais no terminal central pedindo por melhorias nas condições de transporte e pelo passe gratuito para a população. 

Em algumas ocasiões, guardas são contratados para barrar os manifestantes. Nestas ocasiões, muitos participantes fazem um “catracaço”, movimento no qual eles pulam as catracas do terminal para entrar sem pagar.

Usuários pulam as catracas sem pagar em 2015. Crédito da imagem: Movimento Passe Livre Joinville/Divulgação/Nosso TAL

Em Joinville, estudantes da rede pública até o 9º ano ganham apenas 20% de desconto na passagem de ônibus. Os horários das linhas, na opinião de Graziela, são reduzidos e não atendem a população como as pessoas precisam. “No bairro Nova Brasília, por exemplo, o último ônibus que parte do terminal central em direção ao bairro aos sábados é às 18h, impedindo, assim, que a população consiga realizar livremente o direito de ir e ir. Aos domingos os horários são ainda mais reduzidos”, critica.

Quase 200 km de ciclovias, mais carros e motos = menos usuários no sistema

A cidade de Joinville tem algumas particularidades. Uma característica importante tem a ver com a configuração do município. Na região Norte da cidade existe uma concentração grande de empresas, enquanto a maior parte da população mora na região Sul do município. 

Desta forma, como a cidade está constituída, uma parte importante dos usuários do transporte público precisa passar pela área central. Isso faz com que o trânsito nesta área seja complicado e que a maior parte dos usuários tenha que pegar mais de um ônibus para ir e vir do trabalho. E um detalhe importante: a empresa Gidion só opera na área Sul da cidade, enquanto a Transtusa só opera na região Norte. Como o sistema funciona de forma integrada, mesmo os usuários que utilizam o sistema oferecido pelas duas empresas pagam apenas uma passagem. 

Um transporte alternativo utilizado pelos moradores e que é uma das características de Joinville é o uso de bicicletas. A maior cidade de Santa Catarina historicamente investe em ciclovias. Isso faz com que a cidade tenha, atualmente, uma das maiores extensões de ciclovias e de ruas compartilhadas de Santa Catarina e do país. Segundo a publicação “Joinville Cidade em Dados 2021”, produzida pela Secretaria de Planejamento Urbano e Desenvolvimento Sustentável da cidade, no final de 2020 Joinville contava com 194,8 quilômetros de vias destinadas para ciclistas, sendo a maior parte desta extensão (156,13 quilômetros) composta por ciclofaixas. 

Durante a pandemia de Covid-19, muitos usuários voltaram a utilizar as bicicletas para as locomoções diárias. Além disso, por causa da pandemia e em um movimento anterior a ela, a cidade viu crescer o número de motos e motonetas, assim como a migração de usuários do transporte público para os aplicativos de transporte e os carros particulares. 

Ainda conforme a publicação “Joinville Cidade em Dados 2021”, o número de viagens em transporte público na cidade caiu de 2,85 milhões em 2010 para 994,5 mil em 2020. Em contrapartida, o número de automóveis no município saltou de 182,4 mil para 276,1 mil, na mesma comparação. O mesmo ocorreu com a evolução das motocicletas e motonetas, que passaram de 56,3 mil em 2010 para 73,4 mil em 2020. 

Diante das dificuldades apresentadas neste cenário em que uma parte importante da população de Joinville saiu do transporte público e migrou para outras formas de deslocamento na cidade, é preciso discutir novos modelos para o sistema.

>> Confira a sequência desta reportagem: “Itajaí: Prefeitura paga até 70% dos custos do sistema”

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