O motorista que virou um dos principais líderes dos trabalhadores

Aos 52 anos de idade, Pradelino Moreira da Silva se orgulha muito da trajetória profissional que construiu até aqui. A principal fonte de satisfação para ele foram as melhorias trazidas para quem atua no transporte público da cidade, conquistadas após vários anos de lutas através do Sindicato dos Empregados do Transporte Coletivo Urbano (Sindetranscol).

Antes de ser dirigente sindical, Pradelino atuou como motorista do transporte público em Blumenau. No período entre 2017 e 2021, ele trocou a posição atrás do volante para assumir a função de presidente do Sindetranscol. 

Desde junho deste ano, ele ocupa a posição de vice-presidente da entidade, que tem Osnir Schmitt na presidência. Se somarmos todos os cargos desempenhados por Pradelino até hoje, ele tem quase duas décadas de atuação no transporte público da cidade.

Natural de Videira, cidade localizada no Meio-Oeste catarinense, Pradelino mudou-se para Blumenau em 2002. Logo que chegou na cidade, ele começou a trabalhar como motorista na Rodovel, uma das empresas que faziam parte do Consórcio Siga, então responsável pelo transporte coletivo do município. 

Antes de começar a trilhar as ruas de Blumenau atrás do volante de um ônibus, Pradelino trabalhava como caminhoneiro. A experiência e a paixão por dirigir sempre foram pontos marcantes na vida dele. 

A mudança vivenciada em Blumenau é que, ao invés de transportar cargas, ele passou a levar pessoas. “Nós transportamos as pessoas, a gente leva a riqueza da cidade, que é o povão”, enfatiza.

Atualmente, Pradelino cumpre a carga horária exigida pela empresa para os motoristas de ônibus, de oito horas cinco dias por semana, na sede do sindicato. Antes, até 2017, quando assumiu pela primeira vez um cargo no sindicato, ele fazia parte da rotina dos passageiros das linhas Bela Vista, na época da Rodovel; Caçadores e Jorge Lacerda, estas duas últimas já na fase da Blumob.

Os desafios de quem dirige os ônibus da cidade

Para Pradelino, dirigir no trânsito de Blumenau é uma tarefa complicada. Ele afirma que “tira de letra” esse desafio por ter um comportamento sossegado e tranquilo. Mas, na visão do motorista que atualmente trabalha como sindicalista, é justamente esse trânsito complicado que provoca os atrasos nas viagens do transporte público. 

Outra causa dos atrasos, segundo Pradelino, são as situações que envolvem as falhas mecânicas dos ônibus. “Nunca queremos atrasar, mas às vezes acontece, e o cliente não entende”, comenta. 

No período em que trabalhou como motorista de ônibus, Pradelino dirigiu por bairros que têm “fama ruim” na visão de alguns, segundo ele, levando passageiros de linhas como República Argentina, Araranguá e Progresso. 

Apesar de alguns comentários ruins sobre estes trajetos, ele disse nunca ter tido problema como motorista destas linhas. “Graças a Deus nunca passei por um assalto ou algo parecido. Tenho sorte”, acredita. 

O sindicalista, enquanto atuava como motorista, nunca teve problema com assaltos, mas teve que lidar com alguns usuários bêbados. Para enfrentar as situações delicadas, ele levou tudo “na brincadeira”. “Eu relevei tudo que rolou comigo por que, afinal, quem nunca bebeu umas?”, brinca.

No dia a dia da profissão, Pradelino sempre buscou, como os relatos acima revelam, ter um ótimo relacionamento com os passageiros do transporte público. E isso não muda quando ele fala sobre a relação com os colegas de trabalho. “Nós vivemos muito tempo juntos, né?! Temos que nos dar bem. Por isso, eu sou bem amigo de todos”, destaca o vice-presidente do Sindetranscol.

A luta por mudanças através do sindicato 

O Sindetranscol, conforme Pradelino, é o único sindicato do Brasil que tem 96% da sua composição formada por trabalhadores da categoria – ou seja, por motoristas e cobradores de ônibus. Esse diferencial é motivo de felicidade para o vice-presidente do sindicato, que afirma que sempre esteve engajado com as pautas dos trabalhadores do setor na cidade. 

Para fazer parte do sindicato, é simples. O trabalhador só precisa preencher uma ficha cadastral e pagar a mensalidade, que varia de R$ 40, no caso dos motoristas, até R$ 30, no caso dos cobradores. 

Na avaliação de Pradelino, os direitos que os motoristas, os cobradores e os sindicalistas têm hoje, como o valor do salário, o ticket alimentação, o plano de saúde, entre outros, foram conquistados pelo sindicato. 

Mas a realidade para a categoria é desafiadora. O quadro de funcionários do transporte público da cidade era de 1.250 trabalhadores até os primeiros casos de Covid-19 começarem a ser registrados em Blumenau. Com a diminuição de linhas e de horários, começaram os cortes no efetivo. Segundo Pradelino, mais de 300 pessoas perderam seus empregos desde março de 2020. 

Tentando reverter este quadro, o sindicato busca fazer com que os trabalhadores demitidos por conta da pandemia do novo coronavírus retornem ao trabalho. Para favorecer o sistema de transporte e ajudar os passageiros, o Sindetranscol vem lutando para que os horários dos ônibus voltem à normalidade. “Para voltar ao normal, ainda vai demorar bastante, mas estamos fazendo até o impossível pra isso acontecer logo”, explica Pradelino. 

Pradelino durante uma das assembleias do Sindetranscol, onde ele atua como vice-presidente. Crédito da imagem: Arquivo Pessoal/Pradelino Moreira da Silva/Divulgação/Nosso TAL

Quando é o momento de fazer uma greve?

Na avaliação do vice-presidente do Sindetranscol, os trabalhadores costumam se organizar junto ao sindicato quando acham que é o momento de lutarem por seus direitos através de manifestações públicas. Mas muitas negociações acontecem antes destas manifestações acontecerem. 

“A greve não é o nosso objetivo, mas se torna a saída para conseguirmos as coisas. É a última arma que a gente tem quando o patrão não ouve a gente e não abre mão. Até porque temos esposa, filho, amigo que também usam ônibus. Não queremos prejudicar ninguém. É só uma forma de luta pra conseguir o que a gente quer pros trabalhadores”, explica Pradelino.

>> Confira a sequência desta reportagem: “Uma das pioneiras, sempre na busca por melhores condições de trabalho”

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