A rotina desafiadora de quem trabalha na madrugada

A madrugada é a companheira diária de Paula Santos Fernandes, 54 anos, que atua como agente de bordo (cobradora) do transporte público de Blumenau há 12 anos. Aos sábados, o despertador dela toca às 2h. Nestes dias, Paula acorda um pouco mais cedo que o habitual para dar tempo de preparar o café para o trabalho. 

No restante da semana, ela acorda às 4h, garantindo mais duas horinhas de sono. Enquanto a maior parte da cidade segue dormindo, Paula acorda para trabalhar nas primeiras linhas que operam no transporte urbano de Blumenau.

Interessada pela profissão de cobradora de ônibus, depois de atuar em outras empresas e em outras funções, Paula enviou currículo buscando uma vaga no transporte coletivo de Blumenau. Nos últimos 10 anos, ela pensou em mudar de função e tornar-se motorista de ônibus, mas acabou desistindo da ideia. 

“É bem cansativo, mas é gratificante. Não me vejo trabalhando em outro lugar. Eu gosto porque conheço muita gente, faço bastante amizade e conheço muitos lugares diferentes. Acredito que nós somos os trabalhadores que acordam mais cedo, pois somos nós que levamos as pessoas pro trabalho”, observa.

Há 12 anos na profissão, foi por duas vezes vítima de criminosos

Como Paula entrou na carreira após outras mulheres terem conquistado os seus espaços, ela afirma que não sentiu tanto o peso do preconceito por atuar no setor do transporte público. Ela considera os colegas parte da família, especialmente pelo tempo que eles passam juntos diariamente.

“O meu trabalho é leve, mas, mesmo assim, é difícil. Tem gente que diz que não fazemos nada, é só passeio. Mas passar por tantos lugares em um ônibus balançando cansa também”, explica.

Em sua trajetória até aqui, Paula foi vítima de criminosos em dois momentos. Durante um dia de expediente, ela foi vítima de furto no Terminal da Proeb. Um homem entrou no ônibus e levou o dinheiro que tinha sido coletado até aquele momento. Testemunhas tentaram impedir o criminoso de fugir, mas não conseguiram detê-lo a tempo.

O outro furto aconteceu enquanto Paula esperava o ônibus buscá-la para ir até o trabalho. Era cerca de 3h15 quando um carro parou perto dela e um homem levou a bolsa que ela usava e que tinha dentro carteira e celular. O aparelho era novo e Paula ainda estava pagando por ele, mas não conseguiu recuperá-lo.

“Foi uma situação muito difícil. Não tinha ninguém na rua. Fiquei chorando no ponto de ônibus. Cheguei a correr atrás do assaltante, mas ele foi embora no carro. Depois disso, nunca mais fiquei no ponto sozinha”, comenta.

Trabalhadora ainda aguarda pelo pagamento de salários atrasados

Funcionária desde a época da antiga empresa Glória, que operava em Blumenau, Paula tem experiência em greves do transporte coletivo. Ela ainda aguarda receber os salários atrasados dos quais tem direito. E reforça que a paralisação nunca é uma vontade dos trabalhadores.

“É muito desgastante. Sempre tentamos, de todas as formas, fazer um acordo. Mas quase sempre não dava. A empresa (Glória) não aceitava essa conversa. Cada um se reunia na garagem, tentava negociar com um representante, e ficava até resolver a situação. Às vezes demorava, e outras (vezes) era rápido”, recorda.

Entre 2018 e 2020, Paula também fez parte da Comissão Interna de Prevenção de Acidentes (Cipa). Apesar de ter sido a segunda eleita, ela acabou desistindo do cargo por perceber que era mais difícil fazer a diferença do que ela imaginava.

“Você corre atrás de quem pode te ajudar e eles não resolvem. Eu queria muito arrumar o Terminal do Aterro, o mais populoso e o mais abandonado. Fui até o Seterb entregar o pedido, mas sempre me diziam que não podiam fazer mais. Ninguém olha para aquele terminal, não tem jeito”, exemplifica.

>> Confira a sequência desta reportagem: “Duas histórias que migraram de banco dentro dos ônibus”

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