Como os surfistas lidam com os ataques de tubarões

Praticantes do esporte tiveram que lidar com a situação em Balneário Camboriú e em Navegantes em 2021. Atletas de renome internacional já passaram pela experiência

Desde o início da obra de alargamento da faixa de areia da praia central de Balneário Camboriú, muitos resíduos e pequenos peixes estão vindo para a superfície. Essa mudança tem atraído outros animais, como os tubarões. Nos últimos meses do ano, aumentaram os relatos de surfistas, banhistas e pescadores sobre a aparição destes animais marinhos nas águas da cidade.

Um dos moradores de Balneário Camboriú que viu de perto um destes tubarões foi o surfista e dono de uma loja de surfe, Pita Tavares, de 41 anos. Praticante do esporte há pouco mais de 30 anos, ele afirma que nunca tinha passado por uma situação parecida. O encontro dele com um tubarão resultou em um susto tão grande que ele até considerou parar de surfar.

“Quando eu estava sentado na prancha, um ‘negócio’ bateu na minha perna. Até aí, normal, porque todo dia encosta alguma coisa na gente. Pode ser lixo, sujeira de enchente… isso é normal. Mas nunca imaginei que seria um tubarão. Também nunca vi esse animal aqui em Balneário (Camboriú). Já tinha visto no alto mar, mas nunca ouvi um relato de um tubarão encostando em alguém. Como estão mexendo na draga, está vindo muitos resíduos e peixes pequenos. Isso atrai os tubarões para se alimentar. Mas quando ele veio e bateu em mim, achei que era um peixe. Depois de uns três segundos ele veio de frente. Tentei ficar quieto, mas ele bateu com o rabo na minha perna e deu duas ‘cabeçadas’ nas minhas costas. “u entrei em desespero e comecei a gritar muito”.

Pita Tavares


Após ter passado por essa situação, o surfista, já na areia, foi socorrido por um salva-vidas e por banhistas que estavam na praia. Mas ele afirma que, felizmente, a situação não passou de “um grande susto”. Por algum tempo, fora da água, o surfista achou que tinha sido mordido pelo tubarão. Naquele momento, ele gritou para que as pessoas tirassem a roupa de borracha que ele estava usando para que pudessem ver o ferimento que ele achou que tinha nas costas.

“No meu pensamento, dentro da água e até sair, ele (tubarão) tinha arrancado um pedaço das minhas costas. Na areia, estava tão apavorado que gritava para o pessoal tirar minha roupa, que minhas costas estavam cortadas. E não tinha nada”.

Pita Tavares

Dois casos em menos de um mês

Em setembro, um tubarão de aproximadamente dois metros de comprimento chegou a ser gravado próximo ao molhe da Barra Sul por pessoas que passavam pelo local. Pelas imagens, que circularam nas redes sociais, especialistas apontaram que poderia se tratar de um tubarão-martelo.

Após os registros que foram compartilhados, usuários questionaram se a aparição do animal poderia estar relacionada com a nova extensão da faixa de areia em Balneário Camboriú. A secretaria do Meio Ambiente da cidade afirmou, no entanto, que não era possível fazer essa ligação e que estaria tudo dentro da normalidade.

Porém, especialistas como o coordenador do Instituto Anjos do Mar, Marcelo Ulysséa, acredita que existe uma relação de causa e efeito entre as obras em Balneário Camboriú e as alterações no mar que podem estar atraindo mais tubarões para a orla. Isso porque, explica Ulysséa, pequenos peixes começaram a se alimentar dos crustáceos que estão agregados aos sedimentos e areia remexidos pela obra de alargamento da faixa de areia feita na cidade. Por consequência, esses peixes atraíram animais maiores, já que houve uma ampliação na oferta de alimentos.

“Com a proibição da pesca na zona costeira, principalmente das redes de malha, os tubarões têm aparecido com mais frequência. Como houve a ressuspensão de material orgânico e disponibilidade de alimento com a obra de dragagem em Balneário Camboriú, outros peixes menores estão vindo e, com isso, os peixes maiores vem para se alimentar desses peixes. O maior come o menor”.

Marcelo Ulysséa

Na avaliação do especialista, os surfistas e demais frequentadores da praia devem estar atentos para este novo cenário, mas não precisam se preocupar, especialmente se estiverem atentos ao espaço que cada um pode ter no mar.

“Não tem nenhum motivo de alarme para a questão desse aumento de tubarões nas nossas praias. Mas, também, precisamos ter cautela, como (evitar) nadar com tubarões, chegar perto. (Devemos) Deixar a natureza se encarregar da função ecológica que cada um tem”.

Marcelo Ulysséa

Outro caso de ataque envolvendo um tubarão aconteceu no início de 2021 em Navegantes, no litoral Norte de Santa Catarina. Um homem de 41 anos foi mordido no pé, na ocasião, pelo animal. A surfista Bruna Tavares, que começou a fazer aulas do esporte em janeiro de 2020 na mesma cidade litorânea, conta que ficou assustada com a visita do animal marinho.

“Nunca passou pela minha cabeça que um tubarão pudesse aparecer em Navegantes. Então, quando eu soube, fiquei com muito medo. Quando ia para as aulas de surfe, qualquer coisa que encostasse em mim eu já achava que podia ser um tubarão. Mas de lá pra cá, nenhum caso desse tipo ou parecido aconteceu. O que me deixa mais tranquila”.

Bruna Tavares

“Remei como nunca antes na minha vida”, diz surfista mordido por tubarão em Navegantes

O surfe versus os tubarões

A relação surfista e tubarão, volta e meia, volta a ser debatida. Para os especialistas, os seres humanos, sem dúvidas, são os invasores. E por estarem “invadindo” o espaço natural destes animais, os praticantes do esporte correm o risco de encontrar os verdadeiros “donos do território”.

Quem acompanha o esporte sabe que, com as novas tecnologias, como as imagens feitas por drone, as gravações subaquáticas e as transmissões ao vivo das competições, é muito mais fácil ver o que se passa perto das pranchas dos surfistas. Alguns encontros com os animais marinhos são lindos e muitas vezes até imperceptíveis para os envolvidos. Outros encontros se revelam assustadores.

Em 2020, um destes encontros ganhou projeção mundial. Matt Wilkinson, que figurou por mais de dez anos no Circuito Mundial, teve um encontro com um tubarão-branco de quase dois metros de comprimento enquanto surfava em Ballina (Nova Gales do Sul), na Austrália. Tudo foi registrado por um drone.

Assista: Surfista Matt Wilkinson escapa por milímetros a ataque de tubarão

Até o campeão dos Jogos Olímpicos de Tóquio, o brasileiro Ítalo Ferreira, passou por um grande susto envolvendo um tubarão em 2020. Durante uma sessão de treinos na Praia da Reserva, em Saquarema, no Rio de Janeiro, o atleta se deparou com um tubarão de cerca de um metro de comprimento enquanto surfava.

A etapa de Jeffreys Bay de 2015 também registrou uma cena desesperadora envolvendo essa espécie de animal marinho. O australiano Mick Fanning sofreu um ataque de tubarão ao vivo logo no início da final do evento.

Crédito da imagem: WSL/Divulgação/Nosso TAL

Assista: Surfista australiano escapa de ataque de tubarão

O ataque sofrido por Fanning foi o primeiro transmitido ao vivo na história do circuito mundial de surfe. O tricampeão estava parado na prancha quando foi surpreendido por um tubarão. Na ocasião, ele tentou se proteger com a prancha e afastar o tubarão com alguns socos.

O surfista chegou ser atingido no rosto e foi derrubado na água. Em determinado momento, o australiano sumiu das imagens, o que causou grande apreensão entre o público do evento. Mas, logo depois, Fanning reapareceu tentando nadar para a costa. Ele acabou sendo resgatado pela equipe de apoio da competição.

Crédito da imagem: WSL/Divulgação/Nosso TAL

Confira mais sobre este assunto ouvindo o podcast Surfando com Tubarões:

Repórter: Isabelle Stringari Ribeiro.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s