Pesquisadores explicam sobre as consequências das mudanças climáticas em SC

Para reverter o cenário atual, as emissões de carbono devem ser zeradas e mais árvores devem ser plantadas para capturar o carbono que já está na atmosfera 

A atual preocupação mundial com os efeitos causados pelas mudanças climáticas no planeta tem razão de ser. Ecossistemas, populações e diversas espécies correm risco de extinção e já sofrem com os impactos causados pelas ações humanas que degradam o planeta. Para enfrentar este cenário, diversas discussões estão sendo levantadas em diferentes âmbitos da sociedade.

As mudanças climáticas são processos naturais, mas que foram acelerados por causa das ações humanas. De acordo com o geólogo Juarês José Aumond, as mudanças climáticas tinham, originalmente, como causa, os ciclos solares, os parâmetros planetários entre eles a excentricidade da órbita terrestre.

Além disso, contribuía para estas alterações o adernamento (inclinação) do eixo de rotação e as mudanças da composição da atmosfera, provocadas por vulcanismo, campos magnéticos e mudanças na superfície dos oceanos. 

Juarês José Aumond na Groenlândia. Crédito de imagem: Arquivo pessoal Juarês José Aumond/Divulgação/Nosso TAL 

Ainda de acordo com Aumond, pela primeira vez a espécie Homo sapiens sapiens foi a responsável pelas mudanças climáticas sem interferência desses fenômenos naturais em 4,7 bilhões de anos. Isso tudo em função da emissão de gases de efeito estufa.

“Hoje a culpa é nossa, em função dos gases do efeito estufa, principalmente o dióxido de carbono, e também o metano que é vinte vezes mais potente para o aquecimento global, ainda que tenha uma durabilidade de tempo menor na atmosfera. E também o oxido nitroso, da agricultura”.  

Juarês José Aumond

O coordenador do programa de Pós-graduação em Biodiversidade da Universidade Regional de Blumenau (Furb), André Luis de Gasper, explica que as transformações antrópicas, ou seja, causadas pelos seres humanos, já podem ser percebidas em diversas partes do planeta, inclusive em Blumenau.

Entre os impactos percebidos estão mudanças de precipitação e temperatura do planeta. Essas alterações acontecem porque o ser humano queima combustível fóssil e enche a atmosfera de carbono, o que superaquece o planeta.  

“Por isso que a gente não fala em aquecimento global como falava no começo. A gente deve falar em mudanças climáticas porque algumas áreas vão acabar ficando mais frias enquanto outras vão ficar muito mais quentes”.

André Luis de Gasper

O especialista esclarece que não significa que algumas áreas serão mais frias o ano todo, mas que podem acontecer eventos climáticos extremos de frio ou de calor, diferente dos anos anteriores em que o clima era relativamente mais estável.  

Debates internacionais sobre o tema 

Para tentar reverter o cenário no qual o mundo se encontra, o tema está sendo discutido internacionalmente. Entre os dias 1º e 12 de novembro de 2021, por exemplo, foi realizada na Escócia a 26ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP26), evento que teve a participação de 197 países.  

COP26. Crédito de imagem: Karwai Tang/UK Government/Divulgação/Nosso TAL

Juarês Aumond afirma que a partir da COP26 ficou perceptível que a sociedade em geral muito fala, mas pouco faz em relação às mudanças climáticas. O geólogo é estudioso do paleoclima e visita as áreas mais emblemáticas do mundo nesta área, como a Antártida, o Alasca, a Groelândia e o Canadá. 

Na avaliação de André Luis de Gasper, não existe política pública no Brasil ou no mundo no momento capaz de mudar o cenário atual. “A COP26 foi um fracasso de novo, sem ações concretas de fato, só promessas”, avalia. Para ele, precisamos começar a reduzir a quantidade de carbono do planeta. Sem isso, não há solução.  

Durante a COP26, os países que são os maiores emissores de carbono não se manifestaram. Aumond aponta que a China, que é o país com maior emissão de carbono no mundo na atualidade devido à sua matriz energética, não se comprometeu em reduzir nada formalmente.

Ele cita ainda os Estados Unidos, que possui elevada carga de emissões de dióxido de carbono devido à matriz energética adotada pelo país, e que também não assumiu o acordo de reduzir as emissões. O geólogo observa que, apesar da crítica de parte da mídia sobre a participação do Brasil no evento, o governo federal assumiu o compromisso na COP26 de reduzir até 2030 as emissões de carbono e de zerar estas emissões até 2050.

“Um exemplo para o mundo. Mas eu chamaria mais atenção ainda para o seguinte: a matriz energética brasileira é uma das menos poluidoras do mundo”.  

Juarês José Aumond

O geólogo cita as hidrelétricas, as células fotovoltaicas e os aerogeradores como matrizes energéticas menos poluidoras. Além de investir nestas fontes, Aumond destaca como o Brasil foi o primeiro país a utilizar o álcool como combustível para veículos e lembra que o cultivo da cana sequestra carbono da atmosfera.  

Segundo dados atualizados por Aumond, 45% da matriz energética brasileira atual é renovável e somente 3,33% é proveniente de carvão e derivados. Para comparar, ele cita dos dados dos Estados Unidos, onde 82% de matriz energética é do tipo não renovável, ou seja, que tem emissões de carbono.  

Como as mudanças climáticas já estão afetando Santa Catarina 

Juarês Aumond é coordenador e professor no programa de Pós-graduação em Desenvolvimento Regional da Furb, onde ele orienta mestrandos e doutorandos. Através deste programa, professores e alunos têm acompanhado, nos últimos anos, os efeitos das mudanças climáticas em Santa Catarina, identificando o que está acontecendo em relação à elevação do nível do mar.  

“Acontece o seguinte: quando a temperatura média global da baixa atmosfera, até dezessete/dezoito quilômetros de altitude, eleva sua temperatura em graus centígrados, a água do oceano também aquece. E ao aquecer, ela dilata cubicamente, não cabe mais dentro da caixa oceânica e transgride sobre as áreas continentais”, descreve Aumond.

Pesquisas baseadas no Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) da ONU, utilizando mapeamentos georreferenciados de alta precisão dos municípios de Joinville, Navegantes, Itajaí, Itapema e Camboriú, mostraram que a transgressão das águas do mar sobre os continentes já está acontecendo.  

Estes estudos mostraram, segundo Aumond, que o fenômeno da transgressão das águas está acelerando. As projeções feitas para daqui oito anos, para 2060 e 2100, revelam que os efeitos das mudanças climáticas serão cada vez piores se nada for feito para alterar o cenário atual.   

Consequências imediatas

Alguns efeitos das mudanças climáticas já estão sendo percebidos em diferentes partes do planeta. “O Ártico, por exemplo, já quase não congela mais. As calotas polares estão reduzindo. As montanhas que tinham neves eternas, não tem mais neve. As geleiras na Argentina estão encolhendo cada ano mais. Então a gente já percebe uma redução de água disponível nesses locais, e o estoque de água doce que também acaba sendo reduzido”, observa André Luis de Gasper.  

Glaciares da Groenlândia. Crédito de imagem: Arquivo pessoal Juarês José Aumond/Divulgação/Nosso TAL

Outro efeito prático das mudanças climáticas, segundo Gasper, é o aumento das secas. Ele projeta que os próximos anos serão “infernais”. Na avaliação do especialista, o planeta pode observar a perda generalizada da biodiversidade. Como as mudanças são rápidas, muitas espécies não conseguem se adaptar e pode ocorrer uma extinção em massa.  

Seca. Crédito da imagem: V. Tan/UNHCR/Divulgação/Nosso TAL

De acordo com os estudos de Juarês Aumond, a imprevisibilidade meteorológica e climática será cada vez maior. Os verões poderão se tornar mais prolongados e quentes, e os invernos, curtos e muito frios.

Outras consequências serão as longas estiagens, chuvas torrenciais e localizadas, escorregamentos, enxurradas ou inundações, aumento do nível do mar e ressacas. “Podemos até ter um período de dois ou três anos sem nada e, depois, vem com mais força ainda”, projeta o geólogo.  

Soluções possíveis

Para evitar que estes desastres aconteçam, os especialistas afirmam que é necessário que mudanças sejam feitas o mais rápido possível. André Gasper aponta que não há solução para este cenário enquanto as emissões de carbono não forem zeradas.  

Por sua vez, Aumond afirma que, além de parar com as emissões de carbono, é necessário sequestrar o dióxido de carbono que foi enviado para a atmosfera desde o início da revolução industrial e até hoje. Para o especialista, o mundo precisaria copiar a matriz energética brasileira adotando mais fontes renováveis e utilizando menos carvão e petróleo.  

“A gente precisa ter uma visão global mas, também, agir individualmente”, propõe Aumond. Como exemplos de ações individuais, ele sugere reciclar os resíduos, não desperdiçar água e replantar em áreas abandonadas. Esse último item é relevante, segundo o geólogo, porque a restauração destas áreas pode servir como um grande sequestrador de dióxido de carbono da atmosfera. Aumond explica, ainda, que uma floresta nova sequestra mais carbono do que as florestas “maduras”.  

Ações individuais e coletivas são muito importantes. Por isso, entidades e órgãos devem se unir cada vez mais para mudar o cenário atual. Um exemplo de ação conjunta envolvendo poder público e sociedade civil foi realizado em Blumenau, em setembro de 2021.

Na ocasião, foi realizado um mutirão de limpeza do Ribeirão da Prata, no bairro Nova Rússia, que reuniu voluntários e mobilizou moradores da localidade. Confira mais sobre esta ação assistindo ao vídeo da reportagem abaixo:  

Para Gasper, no entanto, apesar de muito importantes, as mudanças individuais não serão suficientes para mudar as tendências relacionadas com as mudanças climáticas. Será necessário também que a população cobre dos governantes por mudanças estruturais e que busquem eliminar a emissão de carbono. 

Repórter: Joyce Thays Moser.

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