Conheça o atleta de Blumenau que completou a maior ultramaratona de praia do mundo

Ronaldo Luís Machado conquistou o primeiro lugar na categoria veteranos de 50 a 54 anos logo na primeira participação no evento realizado no RS

O ultramaratonista Ronaldo Luís Machado, de 52 anos, completou a Extremo Sul Ultramarathon, a maior ultramaratona de praia do mundo. A prova de 226 km de extensão foi realizada entre os dias 12 e 14 de novembro no Rio Grande do Sul, com largada na Barra do Chuí e chegada na Praia do Cassino.

A Extremo Sul Ultramarathon tem reconhecimento internacional e é prestigiada por atletas de vários países. Dos 80 atletas que largaram, apenas 17 completaram a prova. Ronaldo conseguiu um ótimo resultado logo em sua primeira participação, ficando em 12º lugar geral e em 1º lugar na categoria veteranos de 50 a 54 anos. Ele chegou até mesmo a liderar a prova por um longo período, mesmo competindo com atletas muito mais jovens.

Esta conquista é, até o momento, o ponto alto da carreira de um atleta que adotou o esporte como paixão há décadas atrás. O primeiro lugar na faixa etária de Ronaldo é uma conquista pela dificuldade da prova, que leva o corpo ao limite físico, sem contar o limite no aspecto mental do atleta.

O alto nível da prova fez com que a maioria dos atletas sucumbisse perante o esgotamento físico e frente as fortíssimas rajadas de vento, fazendo com que eles ficassem pelo caminho. Um destes atletas se perdeu e só foi encontrado dois dias depois.

Ronaldo correndo na Extremo Sul Ultramarathon. Crédito da imagem: Acervo pessoal Ronaldo Luís Machado/Divulgação/Nosso TAL

Início ainda muito jovem

Aos 52 anos de idade, Ronaldo trabalha na área da enfermagem há quase 30 anos. Como diversos outros atletas que atuam no Brasil e que não conseguem o merecido apoio, Ronaldo precisa conciliar a carreira esportiva com a profissional. Isso faz com que a rotina dele seja muito complicada. Para se manter como um atleta de alto nível, ele precisa multiplicar as horas do dia. Apesar das dificuldades, ele nunca deixou de fazer aquilo que gosta.

“Eu tenho seguido essa carreira paralelamente. Na área da saúde, (sigo com a) enfermagem, e o atletismo. Eu tenho sempre levado paralelamente os dois. E tem dado certo. É uma maneira que eu achei para curtir a vida e fazer algo legal. Só do atletismo não dá para viver no Brasil. Então a gente tem que ter uma profissão, e o importante é que tem dado certo”, comenta Ronaldo.

Foi ainda muito novo que Ronaldo teve o primeiro contato com o atletismo, na época da escola. Segundo o atleta, logo no início ficou evidente a aptidão que ele tinha para essa modalidade. “Eu sou grato, hoje, aos meus professores de educação física. Tudo começou no ensino fundamental, na educação física. Ali descobriram que eu tinha jeito pra correr, me destacava nas provas e nos exercícios. Ali eu fui descoberto. Tanto que eu sei até hoje o nome de todos os professores de educação física que eu tive na vida”, observa.

O apoio da família também foi fundamental para que o jovem Ronaldo continuasse se dedicando ao esporte e levando o atletismo cada vez mais a sério. “O meu pai é da área militar. Ele foi um grande estímulo pra mim… (ele) é um grande estímulo, porque hoje ele ainda treina. Então hoje eu vejo três pontos base: a família; o ensino fundamental, que é primordial na formação de um atleta futuro; e a manutenção através de tudo que eu peguei de bagagem ao longo dos anos”, analisa.

A importância da base na formação

O grande problema do atletismo em nosso país, bem como de muitos outros esportes olímpicos, é a má distribuição da renda. A maior parte dos recursos está concentrada naqueles que já chegaram ao topo, enquanto o investimento na base é mínimo. Essa situação faz com que poucos atletas atinjam o alto rendimento. Caso mais dinheiro fosse investido na base, muitos atletas com grande potencial não desistiriam do esporte, algo que é comum no Brasil.

Para Ronaldo, o trabalho de base no Brasil ainda tem muito a melhorar. “O nosso trabalho de base está criando asas. O Brasil tá vendo que nós precisamos investir na base. Esses dias eu estava falando com o Vanderlei Cordeiro de Lima. Ele tem que ajudar atletas nossos, da Confederação Brasileira, de ponta, que estão morando nos Estados Unidos e que precisam trabalhar de motorista de táxi”, conta Ronaldo.

Ele destaca, ainda, o impacto social do esporte e sua capacidade de moldar o caráter dos jovens cidadãos: “O nosso país está vendo que o segredo para um país sobreviver está na educação e também no esporte. Se nós trabalharmos isso, a gente tira a criança do subúrbio e traz qualidade de vida pra ela. O fundamental não é formar grandes atletas, mas formar grandes cidadãos”.

A construção da trajetória vitoriosa

Ronaldo é um atleta da Confederação Brasileira de Atletismo e representa o país nas competições master. Ele conquistou muitos títulos ao longo de décadas nas mais variadas provas, desde as mais curtas até as mais longas. Esse segundo tipo de provas têm sido o foco do atleta nos últimos anos. A prateleira de troféus de Ronaldo já ficou pequena, não tendo espaço para a maior parte de suas conquistas, como é possível verificar nas fotos abaixo. Para Ronaldo, uma palavra capaz de definir sua trajetória é a da superação.

“Eu gosto de resumir assim: superação é fazer dos teus dias não só dias de trabalho, mas também de treino, e saber que você tem que se superar pra estar igual àqueles que estão lá treinando constantemente. Você precisa se superar dia após dia. A gente não pode querer as coisas de graça, a gente tem que correr atrás. Ainda mais no Brasil. E se não tiver alegria pra fazer isso tudo, não rola”, defende Ronaldo.

É até difícil para um atleta que foi campeão de tantas competições elencar as mais importantes, mas Ronaldo destaca algumas que considera como as mais relevantes. Entre elas, a prova da Mizuno, de 67 km, na serra do Rio do Rastro; o Campeonato Catarinense de 55 km; várias provas de 21 km, provas da Caixa Econômica e diversas maratonas.

A Extremo Sul Ultramarathon

A Extremo Sul Ultramarathon foi a prova mais difícil que Ronaldo já enfrentou. Correr 226 km em um ambiente inóspito com forte vento contrário, poucos pontos de referência e sem comunicação nenhuma com outras pessoas foi um dos maiores desafios de sua vida, segundo o atleta. Para vencer estes desafios, ele precisou de um grande preparo não só do corpo mas, sobretudo, da mente, que pode ser a pior inimiga nesse tipo de situação.

“O psicológico é fundamental. Tem que estar com a cabeça preparada. Você vai enfrentar todas as dificuldades possíveis. Você não tem GPS, não tem celular, não tem staff. Você larga e vem, tem que completar os 226 km. Então é uma prova que exige muito controle, não só físico, como da cabeça também”, explica Ronaldo.

Em provas tão extremas é comum que os competidores tenham até mesmo alucinações durante o percurso. Ronaldo conta que teve alucinações várias vezes durante a prova no Rio Grande do Sul: “Eu achava que isso era mentira, coisa de cinema, mas você realmente vê miragens e tem alucinações. Você começa a imaginar que está no meio de um monte de gente, mas não tem nada. Aquilo que você quer que aconteça você começa a enxergar lá na frente”.

Crédito da imagem: Arquivo pessoal Ronaldo Luís Machado/Divulgação/Nosso TAL

Para Ronaldo, a madrugada era o momento de maior aflição, porque naquela fase do dia as alucinações ficavam mais intensas. “A madrugada é castigante. Além do frio, além de estar isolado, você está sem dormir, muito cansado, e por isso tem mais alucinações. O que mais pega é não enxergar nada na frente, só a luz da lanterna, daí você começa a imaginar coisas. Teve uma hora que eu achei que estava andando em uma estrada, então percebi que estava com água até o joelho, dentro do mar”, recorda.

A assessoria que Ronaldo teve durante a preparação para a ultramaratona começou quatro meses antes. Para o atleta, este trabalho foi crucial para o resultado obtido. Na avaliação de Ronaldo, ele dificilmente teria conseguido o primeiro lugar na categoria em que disputou se tivesse feito toda a preparação sozinho.

“Eu tive uma equipe bem formada, com nutricionista, fisioterapeuta e treinador, com a assessoria da RP Fitness. Essa equipe ficou coesa e eu fui o resultado do trabalho de todos eles. O atleta tem que ter humildade e saber que sozinho não se chega a lugar nenhum”, avalia.

A rotina de treinos, conciliada com a vida profissional, foi levada à risca. Muitas vezes Ronaldo treinava até de madrugada, tendo que dormir poucas horas antes de iniciar o outro dia de trabalho. “A minha carga de volumes por semana chegava a rodar 240 ou 300 km por semana. Treinava duas horas de manhã, mais duas horas de noite. Não dormia sem correr 15 km antes. Eu saía do serviço 22h, ia treinar e chegava 04h30 em casa, pra estar na academia 08h30. Todo mundo acha legal ter completado a prova, mas ninguém imagina como foi a preparação”, conta Ronaldo.

Expectativa e resultado obtido

Ronaldo tinha o objetivo de completar o percurso da ultramaratona em 34 horas, mas teve que mudar o planejamento no meio da prova, e isso fez com que ele completasse o percurso em 42 horas. Resultado que, mesmo fora do planejado, deixou Ronaldo, a equipe que ajudou na preparação e todos ao redor do atleta orgulhosos.

“Eu tive que mudar minha tática por conta dos fortes ventos. Quando eu vi que estava liderando até os 38 km e vi que não conseguiria manter a liderança, eu disse pra mim mesmo pra voltar ano que vem e fazer melhor. Foi uma grande honra ter completado. Dos 80 que largaram, só 17 chegaram. Fui o 1º na categoria, então foi uma grande honra na primeira participação”, resume.

Crédito da imagem: Arquivo pessoal Ronaldo Luís Machado/Divulgação/Nosso TAL

O treinador

O mentor e responsável por preparar Ronaldo fisicamente para a ultramaratona foi Rafael Pickler, proprietário da academia RP Fitness. Rafael ajudou a definir a rotina de treinos de Ronaldo, que foi feita levando em conta as necessidades de um atleta de longas distâncias, preparação totalmente diferente daquela feita por um atleta de velocidade.

“Um atleta velocista de 5 ou 10 km… a preparação dele é mais tiro e velocidade, não tanta resistência, mas sim força explosiva. Um atleta de 21 até 42 km também (precisa de) um pouco mais de tiro e técnica pra chegar o quanto antes na linha de chegada. Já acima de 42 km, como é o caso do Ronaldo, (a preparação) é baseada em fortalecimento, musculação. Quando ele entra em pré-competição, aumenta a intensidade de musculação, podendo fazer musculação até todo dia”, explica o treinador.

Rafael Pickler ao lado de Ronaldo. Crédito da imagem: Arquivo pessoal Ronaldo Luís Machado/Divulgação/Nosso TAL

Rafael comenta que, muitas vezes, as aparências enganam, já que o porte físico de um atleta de resistência é muito diferente do porte físico de um velocista. “Um atleta desse tem bem mais massa muscular e bem mais peso do que um atleta de 5 ou 10 km. Todo mundo olha e fala ‘olha lá o gordinho correndo’, mas esse ‘gordinho’ tem resistência pra caramba. E durante essa prova, ele pode perder até 10 kg”, observa.

O treinador destaca também o papel que teve como técnico de prova, como responsável pelas estratégias e definindo as metas para cada trecho da ultramaratona disputada por Ronaldo.

“O técnico é imprescindível nessa situação. Nossa estratégia inicial era caçar o corredor português, mas não foi possível e tivemos que adotar a estratégia de só completar a corrida. Também tivemos que mudar por causa do vento contrário que era muito forte. Eu, como técnico, montei várias táticas de prova, porque preciso prever tudo que pode acontecer durante a prova. O atleta tem que se preocupar só em ligar o automático e correr”, explica.

O mais importante, na avaliação do treinador, foi o trabalho em equipe realizado pela assessoria. Além de Rafael, a equipe foi formada pelo nutricionista Marcos Vinícius Almeida e pela fisioterapeuta Carmen Eliana Cavalheiro de Almeida. “A fisioterapeuta tem que liberar as articulações e a musculatura que o treinador vai ‘atrofiar’. Então eu ‘quebro ele’ pra ela recuperar. O nutricionista faz a reposição muscular dele e a reconstrução pra ele não se lesionar”, explica Rafael.

Motivo de orgulho

Depois de conhecer a história de Ronaldo e suas conquistas ao longo de todos estes anos dedicados ao atletismo, é impossível não se orgulhar deste atleta que leva o nome de Blumenau para fora do estado de Santa Catarina. Com seu exemplo, Ronaldo deixa todos nós, amantes dos esportes, extremamente orgulhosos.

A trajetória deste atleta nos ensina algumas lições: que nada se conquista sem esforço e sacrifício, que idade não é desculpa para correr atrás dos objetivos e buscar evoluir e, por fim, que não se vai a lugar algum sozinho.

Repórter: Luciano dos Santos.

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