Mulheres são minoria no mundo tecnológico

Blumenau é um polo de tecnologia com destaque nacional em produtividade e número de empresas. De acordo com o Tech Report 2020, pesquisa realizada pela Associação Catarinense de Tecnologia (Acate), o município está entre as cidades brasileiras com maior densidade de empresas de tecnologia, com um total de 3,5 empresas para cada mil habitantes. Além disso, em 2019 foi a terceira cidade com maior produtividade, atingindo uma taxa de R$ 88 mil de faturamento por trabalhador, ficando atrás apenas de Curitiba e Porto Alegre.

Entretanto, mesmo com uma quantidade tão expressiva de empresas de tecnologia, apenas 33% dos colaboradores das empresas de Blumenau são mulheres. Em nível estadual o número é de 42,7% de colaboradoras. No Brasil essa taxa é de 36%, o que deixa Blumenau abaixo da média.

“No mundo a área de tecnologia e de ciência da computação ainda é composta predominantemente pelos homens, mas historicamente, quando os computadores foram introduzidos, quando se começou a trabalhar com programação, as mulheres eram maioria”

explica Andreza Sartori, professora universitária da área em Blumenau.

Em 1974, a primeira turma de Ciências da Computação do Instituto de Matemática e Estatística da Universidade de São Paulo era composta por 15 mulheres e 6 homens. Em 2016, Andreza relata que suas turmas de 40 alunos tinham apenas uma ou nenhuma mulher. “Hoje, no ano de 2021, já percebo que nessas turmas temos em torno de 4 a 8 mulheres”, conta ela sobre o aumento da busca das mulheres pela especialização para atuar na área de tecnologia.

Perfil das profissionais do ecossistema tecnológico catarinense

Em pesquisa realizada em 2021 pelo grupo Mulheres ACATE foi possível identificar qual o perfil das mulheres que atuam no cenário tecnológico catarinense. O questionário da pesquisa, respondido por 147 mulheres de diferentes empresas do setor no estado, apurou que 70% delas possuem pós-graduação, mestrado ou doutorado, e 49% têm de 1 a 3 anos de atuação nas empresas.

Com relação aos cargos ocupados por essas mulheres, apenas algumas ocupam cargos no topo da hierarquia,12% são CEO das empresas e 11,6% são sócias-fundadoras. Depois entram as inter lideranças, em cargos como gerentes e coordenadoras, com uma taxa de 26,5%, seguidas pelas mulheres em cargos técnicos, como analistas e engenheiras, 21%, e por fim aquelas em cargos como consultoras, estagiárias, assistentes ou arquitetas, que somam 19,8%.

Apesar disso, o estudo mostrou que há uma maior participação feminina em micro e pequenas empresas, tanto em cargos de liderança e chefia, quanto técnicos. Comparando as médias empresas, que possuem entre 50 e 99 funcionários, com as pequenas, há uma queda na participação das mulheres em cargos técnicos e de liderança, mesmo sendo essas as categorias em que mais aparecem.

Em relação a mulheres ocupando cargos de CEO e sócio-fundadoras, aparecem com maior frequência apenas em micro e pequenas empresas, com um quadro de funcionários entre 9 e 49 profissionais. Nas grandes empresas de tecnologia de Santa Catarina as mulheres aparecem em cargos técnicos e de inter liderança também, mas as participações em cargos de diretoria, CEO e sócio-fundadora são quase nulas.

Empresa de Blumenau possui 50% de lideranças femininas

Há 20 anos no mercado da tecnologia da informação, a AMcom possui em 2021 cerca de 500 colaboradores. Entre os cargos de liderança da empresa, 50% deles são ocupados por mulheres. Entre elas está a própria CEO, Andreia Rengel, que se dedica ao crescimento da empresa desde 2019.

Segundo ela, a AMcom se preocupa em manter a imparcialidade em todos os momentos, oferecendo as mesmas oportunidades a todos, sem distinção de raça, etnia, cultura, idade ou gênero. O que é analisado é apenas o aspecto profissional de cada um.

“Sobre as nossas lideranças, sempre falamos muito sobre como cada um chegou aonde chegou por um único motivo: porque fez acontecer e por isso mereceu. Assim, a questão da equidade acabou acontecendo naturalmente, da mesma forma na contratação, por causa do talento e determinação de cada um dos líderes”, explica a CEO.

Além de procurar manter essa imparcialidade, a empresa também promove ações e eventos para incentivar mulheres e meninas a ingressarem no universo da tecnologia. O “Codificaí – TI para Todas” é uma oficina gratuita aonde as inscritas aprendem noções básicas de programação e são encorajadas a ingressarem no setor tecnológico.

“Por meio do evento pudemos perceber o quão interessadas estão as mulheres em atuar no mercado de tecnologia. Muitos relatos nos mostram apenas a falta de capacitação. Assim, acreditamos que o nosso papel, além de motivador, é também de capacitar essas mulheres e mostrar que a TI é lugar para todos”

afirma Andreia sobre esse tipo de ação.

Ela comenta que, como diversos setores predominantemente masculinos, a TI tem muito espaço para as mulheres, mas que para isso é preciso qualificação, como demonstram os dados da pesquisa do perfil das profissionais catarinenses, aonde 70% possui formação além da graduação. Para ela, com tantos cursos na região, inclusive alguns deles gratuitos, a ascensão profissional feminina na área só tende a crescer, pois o interesse das mulheres já existe.

“Os programas como o Codificaí e o Programa Jovem Programador, por exemplo, servem como catalisadores para jovens talentos que desejam ingressar na área, e não só podem, como devem ser replicados e patrocinados pelas empresas”, afirma a CEO da AMcom.

Formada em Administração em Marketing e especializada em Gestão Estratégica Empresarial e Gestão Comercial e Vendas, a carreira de Andreia Rengel teve início aos 15 anos, quando entrou para um curso de informática e logo foi convidada para integrar um time de estagiários da própria escola.

Hoje, ela aconselha que as mulheres da área de tecnologia, ou que desejam integrar o setor, mostrem sempre as suas habilidades. “Porque isso ninguém pode tirar de você. Além disso, continue sempre aprimorando suas capacidades e assim, alcançará espaços ainda maiores, servindo como representatividade para outras que estão por vir”.

Estudantes da área tecnológica lutam pelo posicionamento no mercado

Jordana Tomio está no 2o semestre de Sistemas de Informação. Foto: Arquivo pessoal.

O incentivo para que as mulheres sigam e optem pelas carreiras na tecnologia, como programadoras e especialistas em computação ainda é baixo. Jordana Tomio atualmente é estudante de Sistemas de Informação, mas ingressou na área de tecnologia em 2019, quando fez o curso do Entre 21. Segundo ela, em sua turma de 30 alunos, apenas 5 eram mulheres.

Mais do que a falta de incentivo, a professora Andreza Sartori conta que aquelas que ingressam no mercado e lutam pelos seus espaços muitas vezes não são incluídas, por exemplo, em trabalhos mais importantes nas empresas em que atuam.

“A gente (mulheres nessa área) percebe que é unânime essa questão do pré-julgamento, da mulher se sentir desfavorável, muitas vezes colocada de lado ou minimizada pelo fato de ser mulher”.

afirma Andreza.

Jordana conta que apesar de trabalhar com uma equipe formada por 90% de homens, é um ambiente muito bom e respeitoso. Entretanto, já viveu e presenciou situações onde homens fizeram comentários e tiveram atitudes machistas, como desdenharem de programas que garantem vagas exclusivas para pessoas que se identificam com o gênero feminino, ou quando uma colega foi chamada de “louca” após expressar seu ponto de vista, não ser levada a sério e ter reclamado sobre o desrespeito.

São diversas situações onde essa realidade pode ser notada. “Algumas vezes mulheres não são convidadas a participarem de projetos importantes assim como os homens são, às vezes elas fazem alguma coisa correta, e daí quando um colega faz exatamente o mesmo, apenas o que ele fez é considerado, ou uma opinião que não é considerada, enfim são vários aspectos que acontecem no dia a dia”, conta Andreza a partir dos relatos vividos por suas alunas.

Outro aspecto que influencia é o próprio incentivo familiar e de conhecidos. “Muitas alunas relatam que a própria família questionava o porquê de fazer um trabalho ‘que é pra homem’, porque não escolhia fazer outra coisa, desde jovem dizendo que isso não é trabalho para elas”, afirma a professora.

“Algumas vezes aconteceu de pessoas, a maioria homens, não acreditarem que eu conseguiria ou seria capaz de ser uma boa programadora só por ser mulher”

relata Jordana.

No seu caso, sempre teve afinidade pela tecnologia, mas não se imaginava atuando como programadora. Para ela, foi através do Entra21 e da experimentação ainda no Ensino Médio que acabou se encontrando na área.

Hoje, estando no 2° semestre de Sistemas de Informação, Jordana segue na mesma empresa, trabalhando com as linguagens Java, C# e Python. Em cinco ou sete anos ela se vê trabalhando em um cargo de agilidade da empresa, atuando como agilista, sendo assim encarregada de fazer com que todos os processos da equipe de trabalho funcionem com qualidade e eficiência.

“A ideia de que a área tecnológica é muito masculina vem desaparecendo aos poucos. Eu acho que o machismo nessa área ainda é forte, é predominante, e eu acho que só vai acabar quando chegarmos em um número igual de pessoas no mercado”, afirma Andreza Sartori.

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