Mulheres são as que mais sofrem com depressão

Excesso de atividades, autocobrança e preocupações aumentam casos de ansiedade

O Brasil é considerado o país mais ansioso do mundo e a nação da América Latina com maior número de casos de depressão. No continente americano, ele está atrás apenas dos Estados Unidos da América.
Segundo dados da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) 2019, divulgada no final de 2020, estima-se que 10,2% das pessoas de 18 anos ou mais receberam diagnóstico de depressão por algum profissional de saúde mental. Isto representa 16,3 milhões de pessoas, e dentre as regiões do país, o Sul e Sudeste apresentaram os maiores percentuais. O Sul possui 15,2% de pessoas com depressão diagnosticada, e o Sudeste, 11,5%.
Realizada antes da pandemia, a pesquisa demonstrou uma maior prevalência da depressão entre mulheres: 14,7% contra 5,1% dos homens. Entre as pessoas que responderam à entrevista do PNS, 52,8% receberam assistência médica para depressão nos 12 meses anteriores à pesquisa.

Durante a pandemia, os números não foram diferentes. Uma pesquisa conduzida pelo Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP), publicado em fevereiro deste ano, mostrou que as mulheres foram mais afetadas psicologicamente.
A análise dos dados coletados entre maio e junho de 2020 mostra que 40,5% das mulheres que participaram da pesquisa apresentaram sintomas de depressão, quase 35% tiveram ansiedade e pouco mais de 37% estavam com sinais de estresse.

Em junho de 2020, a Organização Mundial da Saúde (OMS) mostrou-se preocupada com a maneira que o Covid-19 afetaria as mulheres, crianças e adolescentes ao redor do mundo. Entre os pontos trazidos pela organização estavam as complicações na gravidez e parto, a violência doméstica e os riscos para a saúde mental de jovens e adolescentes.
A psicóloga blumenauenese Gabriela Frischknecht Petters diz que sinais de ansiedade passaram a aparecer de forma mais clara no público feminino, mas salienta que os efeitos são sentidos em todo o grupo familiar. O fato de estarem todos em casa também acaba sendo um agravante e gerador de estresse.

A psicóloga explica que a situação de pandemia, por si só, já aumenta o nível de estresse de todas as pessoas. “Aquelas que não tiveram a possibilidade ou a habilidade de trabalhar a regulação desses níveis de estresse, de ansiedade, de manter o autocuidado de alguma forma, apresentaram uma tendência maior aos sintomas de ansiedade, inclusive aos sintomas físicos”, diz.

Público feminino é maioria nos consultórios. Foto Ilustrativa: Júlia Laurindo

Mulheres são mais propensas a buscar acompanhamento psicológico

Em seu consultório, a psicóloga Gabriela atende majoritariamente o público feminino e, para ela, a maior procura por acompanhamento psicológico por parte das mulheres possui influências culturais, que estão enraizadas na sociedade brasileira.

Ela diz que nos dias atuais, na psicologia, o modo como o entendimento, a expressão, a compreensão e a regulação emocional é apresentado para meninos, meninas, homens e mulheres, independentemente da idade, é questionado.

“Então, o que nós percebemos é que talvez, não tem a ver especificamente com interesse. Dizer que mulheres são mais interessadas do que homens, mas, talvez mulheres sejam mais incentivadas a falar sobre isso, e a expressar as suas emoções”, argumenta.

A psicóloga diz que frases como “menino não chora, engole o choro”, é um exemplo de afirmações que, repetidas desde as fases iniciais do desenvolvimento da criança, acabam incentivando os homens a se calarem. A ausência desse estímulo, no caso das meninas, permite que elas expressem mais as emoções e se abram mais facilmente durante o acompanhamento psicológico ou até mesmo com amigos e familiares.
Ela conta que já ouviu de alguns homens relatos de que não conseguiam se abrir com psicólogos e pensavam que o profissional não os conseguiria ajudar. Essas pessoas acreditavam que não sabiam falar do que estavam sentindo e das suas emoções, criando uma espécie de bloqueio.

“Dentro dessas classificações, desses rótulos, eu penso que essa frequência maior de procura por mulheres pode estar associada”, defende a psicóloga.

“Mulher é multitarefa porque é obrigada”

Sobre as principais queixas trazidas pelas mulheres em seu consultório, a psicóloga explica que a ansiedade é a mais evidente. “O que eu venho percebendo é uma ansiedade muito forte associada à autocobrança, no ilusório dar conta de tudo. Aquela expectativa paralisadora e humanamente impossível de dar conta de tudo, dar conta da casa, do trabalho, dos filhos, da família, do marido, conseguir estar sempre com tudo em ordem. Eu até brinco com os pacientes: sempre, tudo em ordem, como não paralisar? E isso provoca muita ansiedade nas mulheres”, conta.

As mulheres que são mães também enfrentam uma maior carga emocional, já que ocupam um papel a mais e as suas demandas aumentam. Com o início do home office, as mulheres que trabalhavam fora e têm filhos sentiram uma maior carga de ansiedade. “Então, por vezes, essa expectativa também gerava ansiedade, ‘eu tenho que trabalhar, agora eu teria que estar trabalhando, mas eu não consigo, porque meu filho está me chamando, meu marido está me chamando’ e assim vai”, aponta Gabriela.

Saber ter flexibilidade com a rotina e os imprevistos também é importante, diz Gabriela. Ela comenta que a imposição de uma rotina também pode trazer prejuízos para a saúde mental. Por isso, assumir que nem sempre dá para fazer tudo e do jeito planejado é importante.

Gabriela pontua também que as mulheres são consideradas “multitarefas” e assumem diversas responsabilidades também em casa. Já o mesmo não é atribuído aos homens. Elas assumem responsabilidades dentro de suas casas sem perceberem, por terem mais facilidade ou possibilidade de realizarem tais atividades. “E quando essa família se percebe, essa mulher foi praticamente obrigada a ser multitarefas, não de uma forma intencional, não por mal, mas muitas famílias vão se conduzindo para serem dessa forma. E chama muito atenção né, mulher é multitarefas porque ela é obrigada, para a sua sobrevivência e pela sobrevivência de quem está ao seu redor”, completa.

Quando buscar acompanhamento? 

Em junho deste ano, Bri Santos, 23 anos, iniciou o tratamento psicológico por causa, principalmente, da ansiedade. Ela estava tendo crises de pânico e ansiedade por conta do trabalho. “Eu sempre me pressionei muito para atingir os resultados que a empresa queria e, mesmo que ninguém acima de mim me pressionasse diretamente, eu me cobrava muito e me frustrava ainda mais por não conseguir fazer certas atividades ou entregar algo”, relata.

Além disso, Bri também se sentia insuficiente por conta da ansiedade causada pelo trabalho. “Batia aquele medo de, por não entregar algo, acabaria sendo vista de uma maneira ruim. Então, tudo isso me fazia ter esses surtos e eu passava horas chorando, além de começar a perder a memória recente e não conseguir dormir por me preocupar demais”, conta.

Crises de choro, perda de memória, tremores, e perda de foco eram alguns de seus sintomas. “Eu me sentia horrível. Sufocada. E não conseguia executar nada ao longo do dia”, revela. A jovem sentiu grande influência da pandemia e do isolamento social na maneira que estava se sentindo antes do tratamento psicológico, para ela, o espaço de trabalho e de lazer eram os mesmos. “Minha casa virou meu trabalho e eu não conseguia fugir de forma alguma desse ambiente”, afirma.

Agora, cinco meses após o início do acompanhamento psicológico e psiquiátrico, Bri sente-se melhor psicologicamente e menos pressionada com os acontecimentos do trabalho. Relata que aprendeu a separar as coisas e entendeu que não precisa se pressionar para entregar tudo no seu trabalho. “Está tudo bem em não ter uma habilidade ou outra ali, além de saber o meu limite. Dizer ‘não’ para algumas coisas que me pedem para fazer, e entregar, não me faz ser inferior. Ou não atender expectativas de resultados e tudo mais. Só mostra que eu sei até onde posso ir, e tá tudo bem”, completa.

Já Ana Velasco, 24 anos, retomou o acompanhamento após voltar a ter crises de ansiedade e de pânico. Ela iniciou tratamento em 2018, parou em 2019 e agora em 2021 voltou a procurar ajuda. “Com o histórico de crises de ansiedade e pânico, nos últimos meses voltei a sentir certo desespero, medo, enjoo e não conseguia sair de casa. Sintomas que já senti antes, então consegui identificar o que era, e que precisava de ajuda novamente”, conta.

Como Bri, Ana sentiu grande influência da pandemia na forma como estava psicologicamente antes de retomar o acompanhamento psicológico e psiquiátrico. O fato de ter passado o último ano em casa e ter misturado o espaço de lazer com o espaço de trabalho foi o principal motivo de ter crises novamente. Isso somado com o medo de sair de casa no cenário que se vivia durante o ápice da pandemia.

Agora, a jovem já se sente melhor, ainda não completamente, mas não pretende parar o acompanhamento tão cedo. “Entendo como um processo, mas não pretendo parar nem quando sentir que já estou 100%. Acredito que o acompanhamento psicológico é um investimento pessoal que deve ser feito pelo resto da vida. Para mim se tornou uma forma de autocuidado!”, diz.

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