Mulheres retomam estudos em busca de novas oportunidades

Uma das motivações para o retorno à sala de aula é servir de exemplo para as novas gerações

Mulheres em todo o Brasil são, ou sentem-se forçadas a abandonar os estudos. Em 2018, um levantamento realizado pelo Centro de Defesa da Criança e do Adolescente (Cedeca), baseada na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua da Educação (Pnad), constatou que 23% das mulheres entre 15 e 29 anos desistiram de frequentar a escola para cuidar de casa ou de alguém. 

Entre 1994 e 2003, a professora Denise Izaguirre Anzorena lecionou no Centro de Educação de Jovens e Adultos (Ceja), órgão destinado a pessoas que não concluíram o ensino formal na idade apropriada, e desejam continuar os estudos. Dentre os alunos, ela diz que várias mulheres voltaram a estudar para poder ingressar no mercado de trabalho. “Haviam parado de estudar para criarem seus filhos e voltaram porque precisavam da certificação para conseguir um emprego melhor. Algumas adolescentes porque ou engravidaram e pararam de estudar, ou porque haviam reprovado no ensino regular e esperaram ter idade para estudar à noite”, diz. 

Denise Anzorena, professora de língua portuguesa da Escola Técnica do Vale do Itajaí. Foto: Arquivo Pessoal

Dados da Pnad em 2019 constataram que 743 mil catarinenses com 25 anos ou mais concluíram o ensino fundamental, mas não o médio. Diversos deles são mulheres que abandonaram os estudos. Apesar disso, muitas mulheres que são mães voltam a estudar após criarem os filhos. “Sempre foi muito gratificante trabalhar como estas estudantes. Elas contavam sobre o progresso que tinham no lugar em que trabalhavam e sobre poder ajudar os filhos nos estudos. Esse era o objetivo, mostrar-lhes possibilidades de crescimento pessoal e profissional por meio do estudo”, conta Denise. 

De acordo com o Relatório Sintetizado de 2019, promovido pelo governo de Santa Catarina, mais de 28 mil alunos divididos em 3.020 turmas estavam matriculados em escolas do EJA em todo o estado. “Muitas vezes, as pessoas não têm oportunidade na idade certa [dos 4 aos 17 anos em educação básica e ou 18 a 24 para cursos de graduação], por uma série de motivos, de se manter nas instituições educacionais, seja por problemas financeiros, sociais, entre outros. Muitas mulheres, às vezes por gravidez precoce ou por ter que apoiar o orçamento familiar tendo que se voltar ao trabalho e por ter que cuidar de pais ou filhos, acabam não tendo a oportunidade de continuidade nos estudos”, comenta a doutora em Educação, professora Cássia Ferri. 

Osana Glauce, 45 anos, é um exemplo de mulher que precisou abandonar as atividades escolares. Durante a adolescência, saiu de Assis (SP), sua cidade natal, ao final do primeiro ano do ensino médio com destino a Sumaré (SP), para morar com uma prima. Aos 16 anos, começou a trabalhar para auxiliar nas despesas e não realizou os dois últimos anos de estudos. “Eu não tinha tempo de estudar. Naquela época eu e minha prima morávamos sozinhas e precisávamos bancar o aluguel”, lembra. Mais de 20 anos depois, em 2008, decidiu retomá-los. “Meu marido, na época, também não havia terminado os estudos. Quando conseguimos uma boa babá pro nosso filho, tivemos a confiança pra deixar ele sozinho com alguém. Foi quando sugeri para terminarmos de estudar. Eu achava que quando ele fosse maior, poderia achar que os estudos não eram importantes, já que os pais deles não terminaram”, completa. 

Osana Glauce, formada no Ensino Médio pelo Centro de Educação de Jovens e Adultos. Foto: Arquivo Pessoal

Retomar os estudos não é restrito a pessoas que não se formaram nos ensinos fundamental e médio. Muitas pessoas, em todo o Brasil, têm dificuldade de ingressar em algum curso superior, seja por problemas financeiros ou devido a trabalho. De acordo com o Censo da Educação Superior de 2019, divulgado pelo Inep, 59% dos calouros de 2010 largaram seus cursos em faculdades e universidades.  

Apesar dos dados nada animadores, muitas pessoas acham um tempo para se aprimorarem em meio a rotina. É o caso de Luciane Motyzcka, 53 anos, dona de uma farmácia e mãe de três filhos. “Tudo é uma questão de prioridades. Dá para fazer todas as atividades com um pouquinho de planejamento diário. Se você estipular um cronograma para você e seus filhos, é possível realizar todas as atividades necessárias ao longo do dia”, destaca. 

Luciane é dona de uma farmácia de manipulação no centro de Blumenau, SC. Foto: Arquivo Pessoal

Empresária, Luciane explica como voltar a estudar será importante para seu negócio. “Sempre quis fazer o curso de Farmácia, ter uma visão mais integrada da parte comercial, dos processos de produção e legislação”, afirma. 

Além da organização diária para conseguir retomar os estudos, Luciana sabe que muitas pessoas ainda possuem dúvidas sobre a importância de estudar. “Se você é uma pessoa que têm dúvidas sobre continuar ou começar a estudar, estude, pois irão surgir inúmeras possibilidades de crescimento, interação com outras pessoas, além da evolução pessoal”, comenta. 

Para a professora Cássia, mulheres que buscam aperfeiçoamento não obtêm resultados positivos apenas no mercado de trabalho. “Retomar os estudos não é apenas retomar um processo de apropriação de conhecimento. Significa também retomar a conquista pela ampliação do repertório, qualificação do processo de viver, pela incorporação de outras possibilidades e oportunidades. É claro que há uma relação meritocrática de obter os diplomas, mas acredito sempre que o espaço educacional vai para muito além disso, ele possibilita nos questionarmos sobre quem somos, o que aprendemos, o que sabemos sobre a vida, além de abrir as portas para outras possibilidades”, aponta. 

Para Cássia, retomar os estudos após muitos anos é uma grande conquista. Foto: Arquivo Pessoal

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