Conheça a história de mulheres que exercem profissões dominadas por homens

Atualmente, visto que as mulheres estão cada vez mais presentes no mercado de trabalho, é possível afirmar que rotular determinadas profissões como sendo “de homem” e outras como “de mulher” pode ser considerado politicamente incorreto, já que nenhuma capacidade pode ser medida pelo gênero. Mas isso é só na teoria. Na prática, a representatividade do público feminino em algumas áreas ainda está longe de ser equiparada a dos homens.

Ainda há funções que são predominantemente “masculinas” porque nelas a presença das mulheres ainda é minoria, razão pela qual ainda são vistas pela sociedade como funções tipicamente “de homens”. Entretanto, isso não significa que uma mulher não possa ser tão boa quanto um homem ao prestar serviços na construção civil, por exemplo, ou como motorista, na condução de uma van.

Indicadores sociais sobre as mulheres brasileiras mostram que, embora mais instruídas que os homens, elas ainda têm dificuldades de acessar cargos de chefia e gerência no mercado de trabalho. Apenas 37,4% dos postos de comando existentes em 2019 eram delas. Isto demonstra, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que as mulheres estão ainda mais sub-representadas em cargos gerenciais mais bem remunerados e com mais responsabilidades.

Com efeito, esse também é um outro problema: além de estarem em menor número realizando cargos de liderança, o respectivo salário delas, na mesma função, é menor que o dos homens. Na verdade, ainda de acordo o IBGE, elas receberam apenas 77,7% do rendimento dos homens, em 2019.

Elas na obra  

Atualmente, ainda que construir prédios, casas ou até mesmo pintar paredes sejam ocupações visivelmente dominadas por homens, as mulheres estão tentando conquistar o seu espaço. Uma prova disso é que, de acordo com o IBGE, entre 2007 e 2018 houve um aumento de 120% no número de trabalhadoras no setor.

A cada ano mais e mais mulheres estão dispostas a enfrentar os desafios diários da profissão. Prova disso são dos dados do Ministério do trabalho e da Relação Anual de Informações Sociais (Rais). Entre 2002 e 2012, a participação das mulheres na construção civil cresceu 65% no Brasil.

É claro que algumas atividades nas obras exigem mais força e as diferenças físicas entre homens e mulheres pesam nesse sentido. Essas características são uma das causas que afastam elas deste setor. Isto sem falar que, em um universo tipicamente masculino, além da falta de oportunidade das empresas, elas ainda têm que lidar com o assédio e preconceito.

Apesar disso, a tecnologia vem contribuindo e muito para a mudança dos processos de trabalho, de uma forma geral, com a introdução de máquinas para executar tarefas que demandam mais esforço físico. Os materiais estão se tornando cada vez mais leves e fabricados em formatos pré-moldados, o que facilita o manuseio dos procedimentos que antes exigiam trabalhos mais braçais. Tais mudanças fazem com que haja espaço para a realização de tarefas tanto por homens, como por mulheres, tornando mais acessível a presença delas nos mais variados setores.

O serviço de pintura nas mãos delas 

Embora as pintoras de obra sejam minoria no setor, elas se destacam no mercado, principalmente nas funções de acabamento como aplicação de rejunte e pintura, nas quais costumam ser preferidas, justamente por serem reconhecidamente mais detalhistas, cuidadosas e responsáveis. Diferentemente dos homens, elas atuam com mais delicadeza, o que gera interesse daqueles que contratam esses serviços.

Vanelli começou a pintar em 2002. Foto: Arquivo Pessoal

Essa mudança cultural foi influenciada não só pela constatação de tais peculiaridades genuinamente femininas, mas por alguns fatores, dentre eles estão o aporte de novas tecnologias para a construção e as iniciativas do poder público e do terceiro setor.

Vanelli Pereira, 59 anos, tem uma empresa de construção e atua também como pintora de obras há 19 anos. “É gratificante ser pintora! Finalizar um serviço e olhar para trás e ver que as pessoas te cumprimentam com um belo sorriso, isso não tem preço. Por que construção? Isso é outra paixão, me sinto realizada em começar do zero e criar algo muito importante que é moradia”, relata. Vanelli adquiriu as habilidades necessárias com a ajuda do pai, estofador. Aos 40 anos veio pra Blumenau; antes morava em Rondônia.

Sobre os desafios enfrentados diariamente, a pintora desabafa: “Já sofri com muito preconceito e assédio. Sempre tem o engraçadinho que quer dar uma de gostoso, mas temos que relevar. Com a idade vamos percebendo o que tem de bom nas pessoas. É isso que penso e faço, se algo ruim me acontece resolvo rápido, ignoro e tudo some”.

“Já sofri com muito preconceito e assédio. Sempre tem o engraçadinho que quer dar uma de gostoso, mas temos que relevar”.

Vanelli Pereira
Desde nova, a pintora já estava inserida no meio masculino por conta do pai. Foto: Arquivo Pessoal

Mulheres nos cursos de Engenharia 

O interesse das mulheres pela graduação de Engenharia Civil vem aumentando nos últimos anos. Dados do Censo da Educação Superior apontam que o número de matriculadas aumentou de forma contínua desde 2007. Em 2015, as mulheres já ocupavam 30,3% dessas vagas no país.

Dados do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) em um estudo para a Federação Nacional dos Engenheiros (FNE) apontam que, de 2003 a 2013, o número de mulheres nos cursos de Engenharia teve um aumento de 132,2%.

Segundo a ONG Mulheres em Construção, ao terminarem o curso de Engenharia Civil, 32% ingressam diretamente no mercado de trabalho, recebendo até R$ 1 mil por mês, 28% trabalham de forma autônoma, ganhando até R$ 1.500,00 por semana.

Para a pintora Vanelli, é muito importante que existam mulheres nesse trabalho. “Muita coisa é malfeita e enrolada. Acho que como nós temos que trabalhar dobrado e rápido pra dar conta, isso tem que ser bem-feito. É complicado ter que voltar e refazer, nosso tempo é precioso. Acredito que não podemos deixar de ser femininas, cada uma do seu jeito, mas no mundo em que estamos, não tem como voltar”, ressalta.

Desigualdade de gênero no mercado de trabalho

Cerca de 54,5% das mulheres com 15 anos ou mais integravam a força de trabalho no país em 2019, segundo uma pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Quando o assunto é sobre os homens, esses números aumentam para 73,7%. A força de trabalho é composta por todas as pessoas que estão empregadas ou procurando emprego. 

Esse levantamento de indicadores sociais das mulheres no país traz informações variadas sobre as condições de vida das brasileiras. Além de dificultar a inserção no mercado de trabalho, os afazeres domésticos trazem limitações mesmo para as mulheres que conseguem se inserir no ramo. A pesquisa mostra que a conciliação da dupla jornada fez com que, em 2019, cerca de um terço delas trabalhasse em tempo parcial, isto é, até 30 horas semanais.

O empoderamento feminino “sobre rodas”

As mulheres que dirigem, seja para uso particular ou até mesmo como profissão vêm ocupando cada vez mais estas funções. Contudo, elas ainda são minoria frente aos profissionais do sexo masculino. Tornar a direção um trabalho é cada dia mais comum no cotidiano do público feminino.

Joseane Oliveira de Souza, que trabalha há 12 anos como proprietária e motorista de uma linha de van escolar, conta que trabalhar como motorista é muito desafiador. “Entretanto, não me vejo fazendo outra coisa”, pontua. A motorista tinha uma facção de costura e estava sofrendo problemas em trabalhar como funcionária. Quando surgiu a oportunidade de comprar a van, não pensou duas vezes, e logo adquiriu. No início da carreira ouviu críticas por ser nova e não ter experiência no ramo, mas atualmente recebe diversos elogios dos seus clientes.

“É muito desafiador. Entretanto, não me vejo fazendo outra coisa”.

Joseane Oliveira de Souza

A motorista relata que o preconceito acontece diariamente. “Sempre tem piadinhas, do tipo se eu consigo ir em determinado lugar ou estacionar, mas ignoro esse tipo de comentário. O trabalho da motorista foi prejudicado durante a pandemia do coronavírus, enquanto as escolas ainda não tinham voltado com aulas presencias. Ela ressalta que na quarentena recebeu vídeos e áudios da criançada mandando beijos e dizendo que estão com saudades. “Esse carinho deles é muito gratificante. Mostra que estou fazendo um ótimo trabalho”, destaca a motorista.

Segundo o Departamento Estadual de Trânsito do Estado de Santa Catarina (Detran/SC), cerca de 80mil mulheres realizaram algum serviço com relação à Carteira Nacional de Habilitação (CNH) em Blumenau em 2019, seja primeira habilitação, renovação, mudança de categoria, entre outros procedimentos. O destaque é para as mulheres entre 40 e 49 anos. Só até junho de2020, elas fizeram mais operações do que nos três anos anteriores. 

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