Ana Rosa Castellain: da quadra da escola em Blumenau aos tablados ao redor do mundo 

Sete vezes campeã mundial de powerlifting, a blumenauense Ana Rosa Castellain, 36 anos, iniciou sua vida esportiva na escola onde estudava, no bairro da Velha, em Blumenau. Foi lá que descobriu o balé e passou a sonhar em ser uma grande bailarina, mas o que ganhou o coração dela foi o atletismo.

Nessa mesma escola, era quase sempre a primeira colocada em corrida e saltos. Só perdia para alguns meninos. Depois de muitas medalhas, a menina que passava tardes inteiras praticando atletismo, basquete, handebol e vôlei nas quadras da escola, passou a praticar powerlifting, esporte que tem como objetivo erguer o maior peso possível nos movimentos de agachamento, supino e levantamento terra.

Mas chegar ao topo do mundo não foi fácil. Em um país onde ser atleta não é fácil, ela chegou a trabalhar em três lugares diferentes e dormia só quatro horas por dia. Tudo para correr atrás de um sonho, enquanto o patrocínio não chegava.

Craque em quebrar recordes, Ana concedeu a entrevista a seguir de forma remota, da Noruega, onde se preparava para mais um campeonato mundial.

Como foi o seu primeiro contato com a área do esporte? 

Ana Rosa: Foi pelo atletismo, mas meu primeiro contato com uma atividade física foi dançando balé, com 8 anos de idade. Foi deixado na minha escola, lá na E.B.M. Alberto Stein, um panfleto de um projeto chamado “Dança nos bairros”, que me chamou a atenção e eu quis praticar. Eram duas vezes na semana, e acabei me apaixonando pelo balé. É estranho falar isso, mas sim, fui apaixonada e me via sendo uma bailarina boa, mesmo não tendo o tamanho adequado.

“Meu primeiro contato com uma atividade física foi dançando balé, com 8 anos de idade”.

Ana Rosa Castellain

Após isso foi em um teste de atletismo na escola, aos 11 anos, no mesmo colégio. Eu acabei perdendo na corrida para três meninos, e nos testes de impulsão vertical e horizontal houve um que perdi para uma menina, e o resto eu só perdia para os meninos, mesmo não tendo muita altura e sendo magra. Ali foi meu primeiro despertar para uma modalidade de renome digamos, foi pelo atletismo, na escola. 

E o levantamento de peso, como entrou na sua vida? 

Ana Rosa: Em 2006, em Blumenau, no corredor da faculdade, tinha um panfleto que dizia: “Campeonato catarinense de levantamentos básicos, 1º de maio no ginásio do Sesc”. Eu olhei aquele cartaz e pensei que devia ser interessante. Pensei: “eu não sei direito o que é esse levantamento terra, mas agachamento e supino eu faço”. 

No dia seguinte, uma amiga minha do atletismo me ligou. Ela não competia mais, e falou que ia ter um campeonato e que eles precisavam de mulheres. Queria saber se eu não gostaria de participar. Eu falei para ela que eu precisava aprender a técnica. Acabei indo aprender em um sábado para competir na segunda-feira, que era o dia do campeonato. E me apaixonei. Essa é a verdade, foi amor à primeira vista. E a maioria das coisas na minha vida acontece dessa maneira: eu vejo algo, me interesso, automaticamente penso e acontece, mais ou menos assim. Esse cartaz eu me lembro até hoje, porque era um cartaz simples, não tinha foto nem nada, e eu nunca tinha ouvido falar daquilo. 

No atletismo a gente faz alguns movimentos similares de força, mas não propriamente um agachamento completo. Supino a gente fazia, mas não era da maneira técnica, e o terra eu não fazia, eu fazia arranco e arremesso. Eu já gostava de treinamento de força, então foi muito fácil para mim me apaixonar por esse esporte.

Você continuou no atletismo quando começou com o powerlifting?

Ana Rosa: Sim. Eu comecei o atletismo em 1997, e o pratiquei profissionalmente, mantendo os treinos, até a metade de 2009. Depois disso eu continuei competindo sem treinar, porque tinha uma equipe de São Paulo que me pagava para participar do regional dos Jogos Abertos do Interior, então eu acabava indo lá porque ganhava medalhas de primeiro, segundo ou terceiro lugar. Para eles o campeonato regional é muito importante, então eles sempre pegavam atletas de outros estados.

Eu ia para os Jogos Abertos no Interior de São Paulo desde 2005, se não me engano, então acabei parando de competir atletismo. A minha última competição nessa modalidade foi nos Jogos Abertos de 2014, se não me engano, em Lages. Eu competi sem treinar nada, não treinava mais nada, e fui por Jaraguá do Sul. Fui porque eu sou doida né, apaixonada eternamente por coisas inusitadas.

Então, se eu posso ajudar, eu vou lá e faço. Depois que terminei essa competição, eu cheguei à conclusão que não dava mais, eu tinha que ficar em um esporte só, porque meu corpo não aguentava mais. Não tem como você competir um esporte que precisa correr, arremessar e saltar sem treinar a parte técnica. Na parte de força eu ainda tinha muita explosão, mas fui perdendo porque não tinha como treinar. 

Quais foram teus principais medos, desafios e dificuldades de quando começou a treinar o powerlifting?

Ana Rosa: Dificuldade financeira. A gente basicamente nunca tem apoio. Hoje eu tenho sim, mas o patrocínio financeiro veio só em 2017. Então, de 2006 até 2016, tive pouquíssimas ajudas na vida. A parte financeira sempre pesou demais. Tranquei faculdade três vezes por conta disso, para investir o dinheiro em uma competição, sempre pensando que iria vir algo e não vinha. Houve uma época em que a gente recebeu o bolsa atleta, então sim, teve uma ajuda do governo federal, mas não era uma coisa certa. Então o financeiro é o que mais pesa, porque para quem é mãe solteira ou para quem é chefe de família, tem que sustentar a casa e ainda gastar às vezes mil, dois ou três mil reais em um evento, o que pode ser o pagamento de um aluguel ou a faculdade em si. Então, para todos essa é a parte que mais pesa.

“A gente basicamente nunca tem apoio. Hoje eu tenho sim, mas o patrocínio financeiro veio só em 2017”.

Ana Rosa Castellain

Sobre medo, o medo de errar a gente tem na competição, mas o medo de não conseguir realizar um sonho eu nunca tive. Eu acredito que eu vou envelhecer falando isso, mas é difícil explicar para as pessoas o que vem para mim. Eu sinto que eu tenho que fazer, mas que no fundo não é para mim, é para quem vai vir, então eu tenho que continuar. É uma coisa que me move, é uma coisa boa, um sentimento de êxtase, de prazer, de saber que eu tenho que fazer porque sei que uma hora vai acontecer uma coisa boa, tanto que aconteceu. Eu consegui esse patrocínio que veio de uma empresa de fora. Ganhei um campeonato mundial, ganhei o segundo, ganhei o terceiro, e eu continuava dizendo que precisava continuar porque ia chegar lá. Até meu pai dizia “minha filha você é louca, não vai acontecer”, e eu falei “não, pai, vai acontecer sim”. Então o medo não é uma coisa que me acompanhou nesse sentido. 

O medo de falhar existe, mas eu posso dizer que existe esse sentimento de um dever que tenho que cumprir, e meu dever não é ter medo, meu dever é continuar, caminhar, persistir, para os outros, não para mim.

Além de praticar o powerlifting, ela é formada em Educação Física. Foto: Reprodução / Instagram

Esse desafio da parte financeira mudou ou ainda acontece?

Ana Rosa: Hoje eu posso dizer que, por conta desses títulos que já obtive, por ter me formado na faculdade e por já ter construído um nome, as pessoas vêm me procurar para trabalhar, e financeiramente eu tenho um suporte maior. Mas, por exemplo, aqui na Noruega, nessa competição, meu patrocinador não me pagou absolutamente nada, é tudo com o dinheiro do meu bolso. Se hoje eu estou aqui calma e tranquila, foi porque eu trabalhei e consegui guardar dinheiro para isso sem precisar me descabelar. 

Eu já fui para campeonato pedindo empréstimo no banco, demorei três anos para pagar, e daí vinha outro campeonato. Sempre tinha uma passagem de avião para pagar, uma fatura de cartão, alguma coisa que ficava atrasada, tanto que financiei a minha faculdade por conta disso e estou terminando de pagar só agora. A faculdade que eu concluí em 2014 vou terminar de pagar em 2022. 

Então hoje, financeiramente, eu estou bem melhor por conta de tudo que eu vim construindo, mas não vou mentir, pode ser que no ano que vem algumas coisas apertem, por ter subido o dólar e o euro, mas sei que não vou ficar desesperada como já fiquei. Já houve uma situação em que o empréstimo saiu no dia da viagem. Eu não tinha o dinheiro, comprei a passagem no cartão e estava contando com o empréstimo para sacar e ir viajar. Hoje posso dizer que estou mais tranquila.

Como é ser atleta de um esporte que não é tão conhecido pelo público aqui no Brasil e muitas vezes é associado ao público masculino?

Ana Rosa: No início da carreira do powerlifting, as pessoas acabam associando com o levantamento de peso olímpico. As pessoas associam você levantar peso a ficar com um corpo masculino, e os comentários que eu recebia eram tipo “mas a sua voz é fina”, “mas você é feminina”, “como você pode levantar tanto peso?”. Hoje em dia acontece pouco essa comparação, mas já passei pela situação de estar em uma festa, de vestido com os braços de fora, e um rapaz estar no meio da roda e falar “nunca ficaria com aquela moça ali, porque ela tem um braço masculino”, como se ele fosse ficar com o braço em si. Assim, eu tive só essa situação, fora isso não tive nenhuma outra que me constrangesse.

“As pessoas associam você levantar peso a ficar com um corpo masculino”.

Ana Rosa Castellain

Aqui no Brasil é um pouco triste, estamos batalhando para mudar isso. Quando você viaja para uma competição e passa na polícia do aeroporto e fala que está indo para um campeonato mundial de powerlifting, eles perguntam: “quais são tuas marcas?”, falam: “nossa, você é forte”, então no Brasil nós não temos uma cultura do esporte de maneira geral. Na Europa, nos Estados Unidos, o esporte é mais divulgado. Isso não é uma falha do atleta, mas sim da nossa própria confederação de não buscar uma forma de divulgação melhor e não procurar incentivo para a gente. Cada atleta faz a sua divulgação sozinho, então se eu, Ana Rosa, quero alguma coisa, eu vou buscar sozinha, a minha confederação não me ajuda com nada. Poderia ser feito alguma coisa, mas quem sabe em um futuro próximo. Temos que ter paciência.

Como foi ganhar teu primeiro prêmio? O que você sentiu na hora? No atletismo e no levantamento de peso as sensações foram as mesmas? 

Ana Rosa: Temos diferenças bem grandes. No atletismo eu sempre soube que eu tinha talento, mas não tinha genética para o esporte. Sempre fui muito pequena e magra, porém muito teimosa. O meu melhor resultado no atletismo a nível nacional foi 4ª colocada em um campeonato nacional sub-23, foram três anos depois de um ganhar meu filho, o João. Fiquei em 4º lugar e para mim foi o ápice da minha carreira de resultado a nível nacional. De nível adulto, eu fui a 8ª melhor do Brasil na minha prova.  

Aquilo me deixava satisfeita, mas eu acabei sendo tirada do atletismo por questões políticas, eu não fiz o que eu queria no atletismo. Eu queria ser campeã dos Jogos Abertos e não consegui. Eu fui tirada, me colocaram para fora. Eu acabei minha carreira no atletismo, acabaram com ela né, de forma drástica. Quando eu conheci o powerlifting, tive a chance de realizar um sonho que eu tinha desde pequena. Eu sempre amei esportes, sempre assisti a Olimpíada, ficava na frente da TV, era apaixonada pelo Gustavo Kuerten, assistia todos os jogos de tênis dele, achava aquilo um máximo, André Agassi, Marcelo Rios, jogadores de tênis que algumas pessoas sabem quem são. Mas eu tô falando lá de 1997, 1998, 2000, eu era nova e assistia eles. Michael Jordan, minha inspiração para todo o sempre. Então, eu via esses atletas e pensava “se eles estão em uma Olímpiada, porque eu não posso?”, “Será que um dia eu não vou ter chance de ser campeã de um negócio desse?”.  

“Quando eu conheci o powerlifting, tive a chance de realizar um sonho que eu tinha desde pequena”.

Ana Rosa Castellain

Eu vi no powerlifting essa oportunidade, de ser campeã mundial em um esporte, independentemente de ele ser olímpico ou não. Eu tinha o sonho de ser a melhor do mundo, e eu fui em busca disso da forma mais convicta de que eu iria conseguir. Para mim, se demorassem 8, 9 ou 10 anos, eu sabia que eu ia conseguir. Quando eu ganhei o meu primeiro título, em 2013, para mim, eu fiquei em choque. Eu não sabia descrever, eu olhei para o ginásio inteiro em pé, torcendo para mim e a hora que eu estava cantando o hino nacional, depois me aplaudiram. Pediam para tirar foto e me davam parabéns.  

E foi aí que eu falei assim: “eu consegui”. Aí tu olhas lá o globo terrestre e pensa quantas bilhões de pessoas que existem no mundo, e eu sou a melhor de algo que eu faço. Eu sou a melhor, em alguma coisa. Eu tenho um título mundial. Eu demorei um tempo ainda, tanto que eu vim para o meu segundo campeonato mundial quatro meses depois, consegui outro título e eu ainda não conseguia descrever. Eu dei uma entrevista esse ano onde eu falei que eu consegui ter a noção de tudo o que eu fiz, só em 2019.  

É uma satisfação. Todas as minhas entrevistas eu sempre disse que “menor que o meu sonho eu não posso ser”, então eu consegui fazer alguma coisa, consegui fazer o que eu queria. Realizei o meu sonho e me sinto extremamente grata e realizada, porque eu não desisti em nenhum momento. Eu tinha todos os motivos para desistir, não tinha suporte financeiro, não tinha alguém para me ajudar, não tinha material decente para treinar, treinava depois das 22h, tinha que escolher às vezes entre comer de manhã na casa das pessoas que eu trabalhava para economizar dinheiro para comprar comida ou poder ir viajar. Eu tinha tudo para desistir e quando eu vi que eu consegui tudo isso eu falei: “eu me ferrei tanto e eu consegui. Imagina só quando eu conseguir treinar de forma adequada, o que será que vai vir?”.  

São sensações diferentes, eu realizei uma parte do meu sonho no atletismo, não realizei toda, mas, no powerlifting, a sensação que eu tenho, que eu consegui esses anos todos é indescritível. Pessoal vem falar comigo, vem me cumprimentar para saber como eu estou, parece que pessoas convivem comigo, elas vêm falar comigo como se me conhecessem. Hoje, eu posso dizer que ter esse carinho das pessoas, essa recepção, não tem preço. Ser respeitada por quem eu sou. Continuo sendo uma pessoa de classe média, posso me considerar de classe média por conta do meu salário. Mas, eu moro de aluguel, não tenho carro, nem carteira de motorista tenho, as pessoas até perguntam se eu tenho que fazer e eu falo: “até tenho, mas o dinheiro do carro e do documento dá para ir viajar, daí eu ando de ônibus”. Para mim, a satisfação é a melhor possível, é uma realização pessoal muito grande.

A atleta e blumenauense já foi sete vezes campeã mundial. Foto: Reprodução / Instagram 

Qual das suas conquistas foi a mais significativa para você? 

Ana Rosa: Em 2013, no World Games na Colômbia, que foi o meu primeiro título mundial. Eu dormia quatro horas por noite e trabalhava em três lugares. Quando tocou o hino nacional, foi a mais especial porque: quantas pessoas aguentam? Quantas pessoas aguentam se sacrificar por uma coisa que, de repente, não vai ter retorno. E de fato, não teve retorno.  

Saber que eu estava ali por um título e uma medalha, e no final, às vezes, as pessoas perguntam: “quanto você ganhou?”. Eu ganhei uma medalha de ouro. “Mas quanto você ganhou?” Eu ganhei um título e uma medalha de ouro. Para mim, isso tá mais do que bom. Então, esse título, não tem nada que me tire ele. 

E o segundo maior título foi o meu retorno em 2016, do acidente que eu sofri de carro em 2015. Eu voltei e disse que eu não aceitaria ficar para baixo do pódio. Eu não fui feita para ficar no segundo, eu queria o primeiro. Todo mundo está em uma competição para ser primeiro, segundo ou terceiro e eu não queria ser a segunda, queria estar em primeiro.  

Eu estava lutando contra uma condição de saúde né, tenho sequelas disso, até hoje tenho que cuidar por conta disso. Eu tracei o plano na minha cabeça com o mesmo esquema: eu vou para ganhar. Se eu tiver que continuar trabalhando 14 horas eu vou trabalhar as 14 horas. Naquela situação eu tinha que subir o meu peso corporal, então eu tinha que comer muito, era bem difícil, mas, quando eu consegui o título eu falei: “eu consegui de novo”. De novo, mais uma vez, e repeti isso no mesmo ano outra vez. 

São dois anos bem marcantes na minha carreira. Sou lembrada inclusive por conta disso, as pessoas falam: “como você conseguiu?”, “como você consegue?”. E eu falo que eu sou apaixonada pelo que eu faço. É amor. Se você ama de verdade, dane-se a dificuldade e o dinheiro, se você não tem o que comer, se você não pode dormir porque tem que trabalhar. Se você programa algo na tua cabeça e você quer aquilo, faz. Mas você tem que ter paciência né, é uma paciência muito divina eu digo, até acontecer.

Por conta das competições internacionais você conheceu vários países e culturas. Existe uma viagem que foi mais marcante para você?

Ana Rosa:

No campeonato mundial de 2017, depois do campeonato eu viajei para a Rússia em um camping training, uma experiência de cultura e de treinamento de um país extremamente fechado, com uma política rígida e com pessoas que não fazem questão de você estar no país deles. Eles não ligam se você não fala a língua deles. Então você tem que demonstrar que respeita eles e que você vai acatar o que eles mandarem você fazer, independentemente se você gosta ou não. 

Então, aprender isso, me ajudou a ter um pouco mais de clareza antes de eu dar a minha opinião. Eu sou muito explosiva e muito geniosa, eu tique que aprender a escutar um pouco mais. Eu sempre retruco muita coisa, eu retruquei e depois eu tive que abaixar a cabeça. 2017, em termos de aprendizado, para mim foi um ano muito bom, porque foram três semanas que eu pude ver muita coisa e pude ver que, se você faz o que eles estão propondo, você consegue chegar em algum lugar também. 

A dificuldade que eles têm lá dentro é muito grande, parece que eles vivem em um regime que nem 1970, 1980, coisas assim que você acha que não existe, mas existe. Eles são fechados, mas se você consegue achar um espaço, eles te tratam bem. Foi uma viagem um pouco difícil, aconteceram coisas legais (de legalidade), mas foi bom para aprender, aprendi bastante.

O seu filho, João, também começou a levantar peso? Como foi para você como mãe quando ele se interessou pelo esporte? E depois como treinadora?

Ana Rosa:

A Ana Rosa como mãe sempre vai querer que o filho pratique uma atividade física. Quando ele me pediu para “treinar esse negócio aí que você faz, mãe”, eu fiquei surpresa, porque partiu dele a escolha, não minha. Ele já tinha feito futebol, atletismo, e ele falou: “mãe, a maneira de eu ficar um pouco mais perto de você é praticar o esporte que você pratica. Se você treina com seu treinador pelo telefone, você pode me passar o treino pelo telefone e eu também faço. Se você faz, eu também faço.” 

Me derreti como mãe, né? Como treinadora ainda não consegui e não consigo fazer esse papel. Porque o lado de ser mãe é muito forte. Não vou querer que ele erre, não vou querer que ele falhe e eu não vou querer obrigar ele. A treinadora poderia obrigar ele, mas a mãe dele não obriga ele. Para mim, é muito difícil ver ele treinar e saber que eu queria falar algumas coisas e não falo, fico quieta. Todo mundo fala para ele que treinar com a mãe deve ser difícil, né? Ele fala não, minha mãe não fala nada. Não falo nada mesmo. Não sou chata. Meu filho fala que não quer que eu veja o treino. Então, saio fora, depois ele só me mostra o vídeo.  

A parte de treinadora ainda não existe. Tô dando tempo para ele, para ver se é realmente isso mesmo que ele quer. Tanto é que tinha parado e agora tá voltando de novo. Foi opção dele e eu falei: você vai voltar a treinar, mas eu não quero que você sinta obrigado a competir. Ele disse: “Se der, eu vou”. Assim, para mim como mãe, ele está praticando uma atividade física e já tá de bom tamanho.  

Como treinadora, sei que ele é um garoto com um talento muito grande e com uma genética perfeita. As pessoas vão conversar com ele assim: “tua mãe é campeã mundial, ser filho dela não pode ser menos, né?” Ele escuta coisas que eu não gostaria que ele tivesse que escutar. Ele carrega um peso que eu não gostaria que ele carregasse. Não desejo isso para ninguém, carregar o que eu carrego é muito difícil. Ter seis títulos, um monte de medalhas, ser hall da fama do meu esporte é uma coisa que automaticamente eu carrego. As pessoas sabem quem eu sou, só que é difícil carregar isso porque as pessoas nunca esperam que eu fique fora do pódio. 

Atualmente, dois campeonatos mundiais seguidos fiquei em quarto lugar. Para mim, é difícil ficar em quarto. Eu aceito, mas é difícil. Automaticamente a pressão que eu carrego ao longo desses anos é muito grande. Imagina, o meu filho chega pra mim em um campeonato, eu olho para cara dele, ele vem e bota a cabeça no meu ombro e começa a chorar. Pergunto por que está chorando e ele me diz: “Eu não quero errar. Não posso errar, sou teu filho”. Como a mãe de uma criança com quase 15 anos consegue escutar que ele não pode errar porque é filho da campeã mundial.” 

Então, ali percebi que se eu continuar com ele, talvez eu tenha que escolher uma outra pessoa. Eu não posso nem ficar perto, me cortou o coração vendo-o chorar e eu não pude chorar junto. Porque naquela hora eu não era a mãe e sim a treinadora. Tive que falar que ele não era obrigado a acertar. Se eu como atleta erro, ele também tem esse direito. São situações complicadas, quando você tem que ser mãe e treinadora.  

Eu tenho coração mole, choro com facilidade. Sou muito emotiva, então, ter que carregar um menino bom com um talento igual ao dele não é fácil. Digo que eu não fiz nem a metade do que faria se pegasse outro adolescente com a idade dele para treinar. Eu daria um couro, porque sei que dá, mas ele é meu filho. Eu não vou arrancar o couro dele, sei que dá para arrancar em outro momento.  

Mãe é mãe, não adianta. Isso não vai sair de mim. Até com meus alunos, às vezes, quando eles não tão bem eu já fico super preocupada, imagina com meu próprio filho.

Como é conciliar a vida pessoal, familiar, profissional com os seus treinos, viagens e campeonatos?

Ana Rosa:

A minha vida pessoal praticamente não existe. Vivo para o meu trabalho atualmente. Visito minha família sempre que eu posso. Ser atleta foi uma decisão minha e viver para o esporte também foi uma decisão minha. Desde nova sempre fui obcecada por superação, desafio, o eu consigo provar para mim que eu posso. Escutei muito da minha família, do meu irmão: “ah, mas pra que tudo isso?”, “não vai ter tempo para namorar”, “de repente não consegue namorado porque não viaja”, entre outros comentários.  

Tenho uma vida social. Saio de vez em quando programando. Consigo aproveitar minha vida, mas não da maneira que as pessoas comuns aproveitam.  Por exemplo, as pessoas geralmente vão pra festa ou praia no final de semana. Já eu geralmente tenho que trabalhar e treinar. É uma decisão minha, não me arrependo. Eu tento visitar minha família sempre que posso, às vezes demora 3 a 4 meses para eu conseguir ver eles, mas não deixo de conversar. Quando eu vou lá, sempre fico uns 2 ou 3 dias e depois volto para casa.  

As viagens estão bem complicadas, porque eu estou na minha terceira viagem seguida em menos de dois meses.  Chego a ficar uma semana na minha casa, logo após já viajo para fazer mais uma competição. Quando volto para casa, talvez tenha que viajar de novo. Por um lado, não ter compromisso, por exemplo o namoro, para mim é ótimo. Por que, se mal tenho tempo para o meu filho e para os meus cachorros, como é que eu vou ter tempo para outra pessoa, né? Sou casada com esporte e vou ficar com isso até o fim da minha vida. A pessoa que me escolher, vai ter que entender que primeiro vem o esporte, meu filho, os cachorros, e depois o resto. A pessoa vai ter que aceitar isso.  

Eu digo que aproveito a minha vida da melhor maneira. Vivo na praia, lugar aonde o pessoal vai para tirar férias. Às vezes só o fato de eu ter meia hora para espiar o mar, e andar de bicicleta, já vale a pena. Quem não ia querer ter uma vida dessas. Para mim, a vida tá boa, ótima, da melhor maneira possível.

A primeira competição da Ana no powerlifting foi em 2006. Foto: Reprodução / Instagram

Como você se vê no futuro no esporte? Tem algum objetivo em mente? Algum prêmio ou recorde a ser batido?

Ana Rosa:

Falta eu ser a líder maior do meu esporte. Hoje eu tenho uma ambição que não tinha antes. Eu já estou no hall da fama do meu esporte. Já ganhei tudo que eu poderia ganhar, não tem mais nada a conquistar. Talvez uma ou outra coisinha, mas já conquistei tudo que eu queria e sou muito grata por isso.  

Eu vejo que o powerlifting precisa de uma pessoa com o nome e coragem de ir atrás de incentivo. Um dirigente, uma pessoa comum dificilmente vai ter tempo para ir atrás de uma televisão, um patrocínio. Agora, um atleta com tanto título igual eu tenho, com um nome igual o meu e com vontade igual a minha, pode conseguir alguma coisa.  

Só que para isso tu precisas conhecer um político mais influente, ser mais ativo nas redes sociais, porque hoje em dia isso conta muito. Isso é uma coisa que hoje eu tenho paciência de fazer. Sei que sou nova para já falar da palavra aposentadoria, porque eu só tenho 36 anos e posso estar competindo em alto rendimento até os 44 anos.  

Mas, se eu conseguir liderar o meu esporte da maneira política com um cargo, acredito que vou conseguir fazer mais do que já fiz como atleta. Só que isso vai demandar um pouco mais de tempo e conhecimento. Porque, como todo esporte, tem presidente, vice-presidente, secretário e até conseguir entrar nisso preciso ganhar uma confiança maior. Sou mulher, é um pouco mais difícil quando tu queres um cargo desse. Tu até podes ser boa, mas tem que mostrar jogo de cintura e pulso firme. Isso é uma coisa que eu tenho, eles já viram. Tenho uma boca bem grande, não tenho medo de falar o que eu penso. Mesmo estando errada, quero ser ouvida.  

Eu sei que vou conseguir isso! Agora é ter a famosa paciência. A hora que isso vier para mim, vou ter esse reconhecimento. O que eu tinha para fazer vai ser feito e fechou.

Como a Ana fora do esporte se enxerga? Quais são os planos para o futuro

Ana Rosa:

A Ana fora do esporte é uma pessoa muito pensativa. Uma pessoa que sonha. Uma pessoa que vai querer trabalhar para ajudar outros. Eu escolhi uma profissão que é ser educadora física. Minha maior paixão é ver as pessoas realizando sonhos pessoais, independentemente de quais sejam; sonho de perder 5kg ou até mesmo conseguir correr uma ultramaratona, como um aluno meu que quer correr 110 km.   

Ajudar as pessoas a conquistarem seus objetivos pessoais como uma educadora física. Eu quero continuar com o meu trabalho, não vinculado à atividade física para todo o sempre. Vejo uma pessoa que quer trabalhar para realizar o sonho dos outros, porque eu já realizei os meus. 

A minha maior satisfação é ver alguém me pedindo ajuda independentemente de qual seja e eu conseguir ajudar essa pessoa. Isso até já aconteceu: eu comentei com uma amiga que ela deveria virar sacoleira, vender roupa de ginástica porque essa cidade precisa.

“A minha maior satisfação é ver alguém me pedindo ajuda independentemente de qual seja e eu conseguir ajudar essa pessoa”.

Ana Rosa Castellain

Eu falei isso para ela antes de sofrer meu acidente em 2015. Sofri meu acidente, ela foi atrás do trabalho e essa pessoa vende roupa de ginástica até hoje super bem. Uma coisa que deu certo porque eu falei, por uma visão minha. Passa muitas pessoas na minha mão. Muitas pessoas conversam comigo através de rede social pedindo um conselho, pedindo uma ajuda. Se eu puder fazer essa parte que eu faço, de ser uma motivadora. Se Deus me deu esse talento, que eu continue fazendo isso até quando eu tiver meus 90 anos, sentada no banquinho de casa na cadeira de balanço vendo o passarinho cantar. Que Deus me dê oportunidade de continuar sendo uma pessoa que motiva as outras até o fim da minha vida.

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