Associações de moradores fortalecem integração e reivindicações da comunidade

Reivindicações da comunidade, feitas através de Associações, caminham de forma mais rápida e tem mais chances de serem resolvidas

Carla Marina Bucci e Gabriela Zimmermann

A necessidade de melhorias nos bairros da cidade podem ser facilmente identificadas pelos seus moradores. Basta uma caminhada a pé para entendermos o drama das calçadas mal cuidadas, a falta de lixeiras em vias públicas ou mesmo a necessidade de uma faixa de pedestres em determinada rua. Além dessas questões aparentemente simples, em comunidades de regiões mais isoladas da cidade, ainda é possível perceber a falta de vagas em centros de educação, espaços de lazer e adequação das ruas para amenizar o impacto das enxurradas. Mesmo diante de diante de seu direito democrático de se expressar, é possível um cidadão comum ter um pedido de melhoria em sua comunidade atendido pela Prefeitura? 

Segundo o diretor de Articulação e Relações Comunitárias da Prefeitura de Blumenau João Beltrame, o pedido de um cidadão, isoladamente, é difícil de ser atendido. Em contrapartida, caso seja um grupo, como uma Associação de Moradores (AM), a reivindicação tem maiores chances. “Procuramos dar um retorno às Associações, pois normalmente é a comunidade inteira tentando resolver o problema. Isso ajuda as requisições a andarem de forma mais rápida e serem resolvidas. Por exemplo, quando a Associação faz um documento solicitando a presença de um secretário em uma Assembleia, ele tem por obrigação participar da reunião”, afirma. 

Mas será que isso realmente facilita que consigam chamar a atenção dos órgãos públicos? A Associação de Moradores da Rua Araranguá (Amora) é uma das mais atuantes e participativas de Blumenau, segundo Beltrame. Entretanto, o atual presidente da Amora, Otacilio Neves, aponta que mesmo a Prefeitura sabendo dos problemas com enxurradas recorrentes que a Rua Araranguá enfrenta, o projeto de tubulação que ajudaria a amenizar os desastres está parado desde meados de 2012, no mandato do então prefeito, João Paulo Kleinubing. “Temos parceiros dentro da prefeitura, pessoas que tem compromisso com Blumenau, mas grande parte não nos atende. Mesmo assim, nós cobramos muito, com educação e respeito”, atesta. 

É importante lembrar que as AM não seguem critérios específicos de pessoas ou regiões a atender. Elas podem ser criadas com a abrangência por ruas, transversais ou bairros. Beltrame afirma que o alcance da entidade estará definido no estatuto da associação. 

Em 1986, surgiu a primeira Associação que se tem registro na cidade de Blumenau: a Associação Amigos do Progresso. No mesmo ano, foi fundada a Associação de Moradores da Rua Araranguá e transversais, que hoje abrange cerca de 7 a 10 mil pessoas, nos 1.800 metros da rua, segundo dados levantado pela própria Amora. 

O papel das Associações

Entre os anos 1995 e 2000, essa forma de representação da comunidade em Associações ganhou bastante espaço. Com a febre, o município hoje conta com regiões que chegam a ter uma dezena delas. No site da Prefeitura de Blumenau, constam o nome de 129 AMs em 29 bairros e/ou regiões. Porém, Beltrame afirma que são em torno de 150. “Várias delas estão com problemas com a receita e não declararam imposto de renda”, lamenta.  

Apesar de não receber incentivo financeiro da Prefeitura, as indicações e encaminhamentos de pedidos feitos para o bairro são atendidos. “Em alguns casos, quando é apresentado um projeto e um plano de trabalho, o município dá uma subvenção, que pode variar de 3 a 10 mil reais para um determinado tipo de ação na comunidade. Mas, ultimamente, tem sido bem difícil de liberar esse tipo de recurso”, confessa o diretor de Articulação e Relações Comunitárias. 

É importante lembrar que as Associações são iniciativas independentes, ou seja, não precisam prestar contas ao município. Ainda que a Prefeitura possa ceder terrenos com um termo de uso de espaço para que a AM construa a sua sede, são as pessoas da própria entidade que devem determinar formas de arrecadar e administrar recursos para manter o local. “Mesmo que ocupem alguma área pública, não podemos cobrá-las, pois elas têm vida própria”, confirma Beltrame. Nesse sentido, o presidente entre os anos de 1993 e 1994 e membro da atual gestão da Amora, Emil Chartouni, confirma que hoje a comunidade está mais consciente da importância da Associação e do diálogo com o poder público. “Quando eu fui presidente, foi uma época muito complicada. Os problemas eram maiores. Deixamos de fazer muita coisa porque não tínhamos o apoio do poder público. Eu usei do meu próprio dinheiro para comprar o material de escritório para a Associação”, conta ele. 

Para o atual presidente da Amora, Otacílio Almeida, o amor pela comunidade faz com que ele ceda seu tempo livre para buscar melhorias para a população. “Eu moro aqui há 50 anos, fui criado aqui. Quando eu assumi, no ano passado, eu escolhi valorizar a minha rua, a minha comunidade”, declara. Por outro lado, ele afirma que se a rua estiver bonita, limpa e organizada, isso também vai valorizar o comércio e a economia local. “Hoje, se eu tenho um imóvel aqui e ele vale R$100 mil, amanhã ele pode valer R$200 mil. Os empresários daqui também têm essa visão. A lucratividade deles também vai ser maior”, analisa. 

Para Emil Chartouni, dono do Hotel Oasis Chartouni, esse pensamento faz todo sentido, afinal, o seu empreendimento também fica próximo à comunidade. “Em 2017, quando o Otacílio me convidou para voltar para a Associação de Moradores, depois de vinte e poucos anos, muitos me disseram que era um retrocesso. E eu simplesmente não entendia isso. Antes de ter um hotel, antes de ter cargos políticos e ser presidente de sindicato, eu já tinha nascido na Rua Araranguá”, defende. 

Nesse sentido, sem o auxílio financeiro da Prefeitura, a Amora promove diversos projetos sociais na comunidade. A maioria acontece na própria sede da Associação. “O projeto Boleirinhos, em parceria com a E.B.M Alice Thiele, é uma das formas que conseguimos para afastar as crianças das drogas e unir a comunidade”, exemplifica Otacílio. As aulas de futsal acontecem aos sábados, das 14h30 às 16h30. Cerca de 25 crianças de 8 a 12 anos são beneficiadas com a ação. “No começo, o café da tarde era doação de um empresário da região. Hoje, os próprios pais já levam a cuca e o café… A gente realmente vê o resultado na integração da comunidade”.

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