Recomeço

Segundo o IBGE, 174 mil pessoas fixaram moradia em Santa Catarina entre 2005 e 2010 e, após conseguir um lar, os imigrantes precisam superar a barreira do emprego

Fernanda Tenfen

Guerra, fome, ditadura, fenômenos climáticos ou apenas a busca por uma vida melhor são alguns dos motivos que fazem refugiados imigrantes virem a diversos lugares do Brasil, incluindo o nosso estado. Essas imigrações já acontecem há algum tempo. A história mostra que no século XVIII toda a América Latina teve intensos fluxos migratórios, muitos deles de europeus colonizadores e africanos escravizados. Já durante o século XIX, com as crises político-sociais que arrasaram a Europa, novos imigrantes chegaram à Argentina, Brasil, Uruguai e Chile. No século XX uma nova onda de imigrantes chegou à América Latina após a Segunda Guerra Mundial.

O atual fenômeno de imigração também tem a sua explicação. Neide Patarra, professora de Ciências Sociais e pesquisadora titular da Escola Nacional de Ciências Estatísticas do IBGE, analisa que a globalização teve um importante papel na escolha de qual será o país de destino dos imigrantes. “Com ela, os horizontes dos indivíduos são ampliados. Não há muito tempo, as pessoas iam procurar uma vida melhor não muito longe de sua terra natal, iam até a maior cidade em seu próprio país ou para algum estado vizinho. Através da globalização, as nações se tornaram mais próximas com as produções cinematográficas, a televisão e a internet. Pensando nisso, o fato de o Brasil ter sediado a Copa de 2014 e as Olimpíadas de 2016 colocou nosso país no centro das atenções, despertando o interesse de possíveis novos moradores.” 

No início do século XXI, o Haiti enfrentava uma crise política grave que fez a Organização das Nações Unidas (ONU) iniciar uma missão de paz no país, mas as coisas pioraram com um terremoto em 2010. Esses fatos fizeram com que muitos haitianos buscassem no Brasil um novo lar. Uma pesquisa da Organização Internacional de Imigração (OIM) e do Instituto de Políticas Públicas em Direitos Humanos (IPPDH) apontou que até o fim de 2016, 67 mil autorizações de residência foram emitidas para haitianos. Algumas dessas residências estão em Blumenau. Segundo estimativa de Webster Fievre, presidente da Associação de Brahaitianos Unidos (ABHU) , o município recebe anualmente 700 famílias haitianas. 

Aula de português para a comunidade haitiana
Foto: Divulgação

Através de um trabalho voluntário, a associação ajuda as famílias com aulas de português, doações de roupas, auxilia com entrevistas de emprego e orienta os imigrantes no funcionamento das leis trabalhistas brasileiras. O trabalho é a maior barreira para muitos haitianos que moram aqui.  “O Brasil tem muitas coisas boas. A maioria das pessoas tentam ajudar e compreender você. Mas quando se trata de trabalho, as pessoas têm uma certa desconfiança e vão querer priorizar seu próprio povo”, conta a imigrante Marie Mendez. 

A haitiana está há 3 anos no Brasil e até agora não conseguiu nenhuma vaga de emprego. Porém, nem sempre foi difícil conquistar um trabalho. Em 2012, ano em que não havia tantos imigrantes e nem a crise econômica, uma empresa blumenauense de montagem de bicicletas chamada Nathor foi até Porto Velho, no norte do país, buscar haitianos para preencher as vagas de emprego. “Os brasileiros ou as pessoas que estavam aqui não poderiam contribuir muito com o crescimento da empresa”, relata Fievre. “Nesse tempo era muito bom porque a Nathor foi atrás dos haitianos, mas depois disso chegou um momento em que o Brasil entrou em crise e faltou emprego. Diante disto o imigrante está em segundo plano, ele só vai ser contratado se sobrar vaga”.

Porém, os dados mostrados pela Relação Anual de Informações Sociais (RAIS), divulgado pelo Ministério do Trabalho, mostram uma realidade diferente em Santa Catarina. Os dados de 2016 revelam que o estado é o segundo com mais imigrantes no mercado formal. São 14.348 pessoas de outros países atuando em solo catarinense. Santa Catarina perde somente para o eEstado paulista com 43.141 trabalhadores. O RAIS mostra ainda que Santa Catarina é o que mais emprega haitianos no país.

Em maio de 2017, a nova Lei da Migração acabou com o até então válido Estatuto do Estrangeiro, que via o estrangeiro como uma ameaça à segurança pública e nacional. A lei em vigor assegura os mesmos direitos de um cidadão brasileiro. O documento incentiva a regularização imigratória, não permite a prisão de imigrantes por estarem irregulares (não regulamentados pela Polícia Federal) no Ppaís e repudia ações de expulsão e não acolhimento dessas pessoas. Além disso, o imigrante tem direito a ter acesso aos serviços públicos de saúde e de assistência social, à justiça integral gratuita, se não possuir recursos suficientes, e acesso à educação pública. 

A haitiana Bruna Mendez,14, conta com um sorriso no rosto como ela foi encorajada a socializar com os colegas de classe nos primeiros dias de aula. “Toda vez que eu ia sentar sozinha, o professor me incentivava a sentar com os meus colegas. Quando a timidez começou a passar, meus colegas ficavam curiosos para saber como é meus país”, relembra Bruna. A adolescente sente falta do Haiti, mas sonha com o futuro que está construindo no Brasil junto com seus pais.

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