A rua como uma extensão do lar

De acordo com Ipea, 101 mil brasileiros vivem em situação de rua

Júlia Beatriz, Júlia Vanderlinde, Karoline de Souza e Raquel Piske

Crianças, adolescentes, adultos e idosos vivem andando pelas ruas, todos com um problema diferente. De acordo com o Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), existem 101 mil brasileiros em situação de rua. Muitos sofreram algo na família, seja uma briga ou uma perda, outros estão lá por usarem drogas, bebidas e, por conta disso, acabaram perdendo tudo o que tinham ou, até mesmo, vivem trabalhando nas ruas, vendendo balas e frutas para se sustentar. 

Cleide Gessele, professora do curso de serviço social da Furb, explica que é um direito constitucional essas pessoas viverem na rua e não são obrigadas a saírem para viver em abrigos, é uma opção delas e a política pública deve garantir que sejam atendidas conforme suas necessidades. Por isso a importância do Sistema Único de Assistência Social, que presta auxílio não somente a esta parcela da população, mas a toda uma sociedade cercada de problemas sociais: “a desigualdade no Brasil é enorme entre ricos e pobres, então, a rua acaba sendo uma opção para que essas pessoas a utilizem como uma extensão do seu próprio lar”.

Cleide Gessele e sua experiência com pessoas em situação de rua

Seu Zé

Se ao longo da sua vida você passou pela Furb, deparou-se com o Seu Zé, de baixa estatura, usando um chapéu e sempre acompanhado de seu amigo canino, Nikki. O homem vivia há um ano e sete meses na rua por problemas familiares e no começo de 2018 faleceu. Seu Zé contava que sempre tentavam o levar para um abrigo, mas se recusava a ir sem o seu cachorro, pois, segundo ele, animais não são permitidos no local. “Graças a Deus eu tenho ele, não chega um morador perto de mim, é minha proteção”, referia-se ao cão. Na mala, que o acompanhava por todo lugar, guardava coisas que recebia das pessoas e lembranças da vida que tinha antes de ir para as ruas, como fotos.    

Nikki Foto: Karoline de Souza

José Carlos falava abertamente sobre sua vida antes das ruas. Já foi preso por assassinato em 1992 e 2006.  Foi casado durante sete anos, mas sua esposa havia o trocado por um amigo dele enquanto estava na prisão pela segunda vez. Já foi foragido da justiça, mas não voltou para a prisão após ser liberado para o velório de sua mãe. Segundo ele, estava tudo resolvido e assinou uma pena que terminaria em 2020.

Seu Zé em frente a universidade Foto: Karoline de Souza

 

Seu Zé conhecia muitas pessoas que frequentam as redondezas da universidade, incluindo os acadêmicos. “Todo mundo me ajuda, aí eu dou pros moradores de rua que passam. Eu ajudo todo mundo, no que eu puder apoiar, eu apoio. Por isso que todos os moradores de rua me consideram”, relatava, revelando ainda que os outros moradores de rua o chamavam de Padre Zé, justamente por ajudar sempre. Sobre sua rotina, Zé acordava às 5 horas da manhã, fazia seu café no álcool, passava o dia nas proximidades da Furb e perto das 10 horas da noite, tomava a sua cachaça.

Seu Zé era muito amigo das pessoas que frequentavam as redondezas da universidade
Foto: Karoline de Souza

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