Resenha: David Lynch – A Vida de Um Artista, um mergulho estranho e onírico sobre arte

Documentário sobre o peculiar diretor foi exibido no Cinesesc no dia 17 de julho

Luiz Machado

Sempre transitando entre realidade e sonho, David Lynch é com certeza uma das figuras contemporâneas mais interessantes do cinema. Exibido na mostra “A Arte e Seu Enleio” o documentário, dirigido por Jon Nguyen, Rick Barnes e Olivia Neergaard-Holm, tem a difícil missão de traduzir um pouco da mente e do passado desde misterioso homem. Mas o que poderia cair em clichês autoexplicativos e expositivos na construção de Lynch como personalidade, acaba completamente diferente e igualmente estranho. Do jeitinho do próprio diretor.

Lynch conta suas histórias, divaga sobre arte, esquece momentos específicos de sua vida e em boa parte do documentário ignora a própria carreira no cinema (que fica para o bonito final). É uma abordagem interessante focar em sua figura como artista plástico, já que na realidade todo mundo conhece Lynch muito mais como diretor. Assim, The Art Life, acaba não sendo uma explicação do porquê ele ser assim, mas sim mais uma peça no intrigante quebra-cabeças onírico que é a vida e a mente deste tão criativo artista.

Com histórias melancólicas sobre sua infância, ele conta com carinho sobre os primeiros passos de sua carreira. Em um dos momentos mais interessantes do documentário ele vai falar sobre a relação com o pai e como sua visão artística (muitas vezes mórbida) não era compreendida. E que como no início de sua carreira tudo o que queria era fumar cigarros, beber café e pintar. Preservando sua aura misteriosa e a excentricidade, as conversas soam naturais e são bonitas. O diretor as conta com uma nítida nostalgia e emoção que te envolvem e sugam para aquele mundinho bizarro. É estranhamente prazeroso de se assistir e ver esse homem falar, falar e falar mais. Particularmente o documentário poderia durar pelo menos mais três que eu assistiria sem problema algum. 

Talvez nunca será possível entendê-lo totalmente e isso é uma das coisas mais cativantes sobre sua personalidade. O filme acerta em cheio ao preservar isso e soar tão estranho quanto o resto de sua filmografia e carreira. No fim da exibição um dos espectadores comentou “Que bom que ele nunca foi pra um psiquiatra!” e eu não poderia concordar mais. 

Trailer do Documentário:

Conheça alguns trabalhos do artista:

Twin Peaks

Provavelmente sua obra-prima. A série de televisão é um dos maiores ícones da cultura pop norte-americana. Lançada originalmente em 1990 o seriado acompanhava a chegada de um agente especial do FBI, interpretado por Kyle Maclachlan, até uma pacata cidadezinha após o assassinato da jovem Laura Palmer. Com ares novelescos e muito mistério, a série engajou o público com temas pesados para a época e narrativa completamente diferente do que se era feito. Uma mistura com trama polícial, traições conjugais e um bizarro aspecto sobrenatural que ronda toda a série. Twin Peaks foi um fenômeno de vida curta. Durou duas temporadas até seu cancelamento em 1991. Já em 1992, Lynch lançou o filme Os Últimos Dias de Laura Palmer (Fire Walk With Me) com o objetivo de tirar algumas dúvidas dos fãs sobre um dos maiores mistérios da série. Mas para ser sincero ele acaba confundindo ainda mais. Foi só anos depois e com uma legião de fãs, que Twin Peaks se tornou um fenômeno cult inúmeras vezes revisitado e referenciado. Em 2017 aconteceu o seu grande retorno, tanto do seriado como para Lynch que estava desde 2006 (após Império dos Sonhos) sem lançar nada nos cinemas ou televisão. Twin Peaks retornou para uma minissérie de 18 episódios (que está disponível na Netflix) ainda mais maluca e reformulada como uma grande obra de arte. Inclusive muitos consideram a minissérie uma espécie de filme de 18 horas dividido em partes, por conta de seu conteúdo não caber muito bem em um sistema episódico. Agora em 2019 o diretor Jim Jarmusch afirmou que Twin Peaks: The Return é o melhor filme da década e… Bem… Ele não mentiu.

No Cinema:

Cidade dos Sonhos (Mulholland Drive)

O título aqui no Brasil tecnicamente é um spoiler, mas tudo bem. Idealizado originalmente como uma série de televisão. O filme foi montado e repensado fora de ordem cronológica após os cenários originais terem sido destruídos. Por isso sua narrativa é totalmente desencontrada e intrigante, como todos os outros trabalhos do diretor. Particularmente é meu filme favorito da filmografia dele e por mais que tudo ali parece ser completamente perdido, existe uma história muito maior e mais profunda do que a Cidade dos Sonhos aparenta ter. Em seus momentos mais inspirados o filme é um verdadeiro pesadelo dos mais macabros, em outros sua subtrama romântica apresenta uma melancólica história sobre desejo e corações partidos. É uma montanha-russa de emoções completamente memorável. Você não vai sair desse filme se sentindo indiferente com relação a ele. 

Eraserhead

Considerado pelo próprio diretor seu trabalho mais “iluminado” (e ele se recusa a explicar por que), é uma obra maluca e sem pé nem cabeça, mas imageticamente hipnotizante que você assiste inteiro sem perceber o tempo passar. Com mensagens claras sobre o medo da paternidade e vários momentos estranhos e desconcertantes, o filme transita entre um pesadelo enervante e uma obra de arte visualmente impressionante. Inclusive no documentário ele cita várias vezes do problema para produzir esse filme (com direito a família tentando convencê-lo a largar o projeto e arranjar um emprego “de verdade”) e termina falando como acha tudo sobre ele lindo. É um trabalho apaixonado e apaixonante. Vale a pena conferir, mas vá sem a esperança de encontrar uma narrativa com começo meio e fim. 

Na música:

The Big Dream

Álbum experimental, sombrio e desconfortável. É uma viagem pelo mundo sonoro de Lynch. Se seus filmes transitam pelo mundo dos sonhos e a mente inconstante de um artista perturbado pelos próprios pensamentos. Na música não é diferente. Com sons desconcertantes e instrumentos tocados de forma quase assustadora. The Big Dream é excelente para começar  a se aventurar pelo mundo musical e entender mais um pouquinho do que passa na cabeça do cara. 

Você pode ouvir o álbum no Spotify clicando AQUI.

Clipe I’m Waiting Here, parceria com a cantora Lykke Li

Curtas-Metragens:

Rabbits (2002)https://www.youtube.com/embed/GxKPBLjHAEA The Alphabet (1968)https://www.youtube.com/embed/oJxrZW80eq0 

Na próxima semana no Cinesesc

24/07 – “O Cidadão Ilustre”

Daniel Mantovani (Oscar Martínez), um escritor argentino e vencedor do Prêmio Nobel, radicado há 40 anos na Europa, volta à sua terra natal, ao povoado onde nasceu e que inspirou a maioria de seus livros, para receber o título de Cidadão Ilustre da cidade – um dos únicos prêmios que aceitou receber. No entanto, sua ilustre visita desencadeará uma série de situações complicadas entre ele e o povo local.

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