Orgânico ou Agrotóxico? O paradoxo da produção agrícola brasileira

Nos últimos anos, o aumento de produtores orgânicos cadastrados aumentou, o mesmo aconteceu ao cadastro de agrotóxicos

Vinícius Peyerl Vieira

Orgânicos, naturais, transgênicos, light, diet, funcionais, integrais, biodinâmicos, agroflorestais, agrotóxicos, bioquímicos. São muitas as nomenclaturas que vemos em nosso dia a dia quando se trata de alimentação, mas o que cada um desses nomes significa chega a ser confuso. O uso de agrotóxicos, que já foi confirmado pela ONU como prejudicial a saúde, tem aumentado no Brasil nos últimos anos. Em comparação, o número de produtores oficializados como “Produtores Orgânicos”, também cresceu. Esta contradição nos hábitos de consumo do Brasileiro foi evidenciada em várias pesquisas, que podem indicar a melhor maneira de consumir comida no seu dia a dia.

ORGÂNICOS

Um dos diferenciais nos alimentos mais comentado nos últimos anos são os produtos orgânicos, esse tipo de vegetal é aquele produzido de forma sustentável sem danos ao meio ambiente e sem o uso de agrotóxicos ou químicos artificiais. A realidade atual, em 2019, é muito diferente de sete anos atrás, em 2012, o Cadastro Nacional de Produtores Orgânicos (CNPO) tinha registro de apenas 6.000 trabalhadores. Hoje, este número triplicou, ultrapassando a faixa dos 18.000, só em Santa Catarina existem 1.255 produtores cadastrados. 

Mas esses números são diferentes do esperado. Em 2007, o ano em que o registro começou a valer nacionalmente, o IBGE divulgou um dado indicando que cerca de 90.000 agricultores se identificavam como “produtores de orgânicos”, mas a maioria dessas pessoas não consta hoje no cadastro. Isso se dá pelos requisitos necessários que não são cumpridos, o que desqualifica grande parte destes produtores para a entrada no CNPO.

Dados: Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA). Crédito: Vinícius Peyerl Vieira

O principal fator que influencia estes números é o novo mercado consumidor de alimentos, a busca das pessoas por uma alimentação melhor é realidade. De acordo com pesquisa divulgada pelo Conselho Brasileiro da Produção Orgânica e Sustentável (ORGANIS) em 2018, 15% da população brasileira consome algum produto orgânico todo mês, este fato na região sul é ainda maior. Nos estados de Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul, o consumo de orgânicos faz parte da vida de 34% da população

De acordo com os últimos dados da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), a Uva é a fruta com maior carga de agrotóxicos.
Crédito: Vinícius Peyerl Vieira

Este novo nicho de mercado é fortemente ligado ao fenômeno das Feiras Orgânicas, que são uma nova forma de comercializar estes produtos. O sistema chamado Mapa de Feiras Orgânicas já conta com 841 cadastros em todo o Brasil, espalhado pelas 5 regiões, em Santa Catarina, 60 dessas feiras já estão registradas. Este sistema mostra a localização de todas as Feiras cadastradas no país, com endereço e localização exata.

AGROTÓXICOS

A produção agrícola se torna diversa quando analisamos a quantidade de agrotóxicos usada, ao mesmo tempo em que se aumenta o número de produtores orgânicos e naturais, também eleva-se a quantidade de legalizações dos tóxicos por ano, que em 2018 chegou ao seu ápice, com 450 aprovações.

Dados: Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento.
Crédito: Vinícius Peyerl Vieira

Os dados são mais assustadores quando se observam as estatísticas da Companhia Integrada de Desenvolvimento Agrícola de Santa Catarina (CIDASC). Cerca de 2% de todos os agrotóxicos estão em situação de suspensão, ou seja, 27 toxinas estão em “estado de teste” por ocorrência de denúncias de danos ao meio ambiente, independente da própria classificação já indicar perigo aos sistemas biológicos que cercam as plantações.

Já os agrotóxicos “cancelados”, tiveram seu registro caçado e anulado, mas ainda estão no sistema por condições burocráticas do cadastro.

Dados: CIDASC

Os produtos com maior registro são os de Classificação II, nomeados “Agrotóxicos de Muito Perigo ao Meio Ambiente”, esta categoria conta com 623 cadastros, representando 47% do total de agrotóxicos no estado inteiro.

Dados:  CIDASC

O segundo lugar vai para os agrotóxicos de Classificação III, registrados como “Agrotóxicos Perigosos ao Meio Ambiente”, que conta com 512 registros.

Dados: CIDASC

As toxinas de Classificação I, “Agrotóxicos Altamente Perigosos ao Meio Ambiente”, contam com 43 documentações em Santa Catarina.

Dados: CIDASC

Quanto aos “Agrotóxicos Pouco Perigosos ao Meio Ambiente”, de categoria IV,147 documentações em Santa Catarina foram regulamentadas.

Dados:  CIDASC

Independente da forma de consumo adotada, é importante observar as novas tendências, o consumo consciente e sustentável é necessário e é uma realidade crescente, em paralelo com a situação do governo atual, que em dois meses de 2019 publicou a autorização de 86 novas toxinas, pode se observar que a produção massiva agrícola também ganha espaço, o número de agrotóxicos cresce, a saúde da população é colocada em risco e algumas espécies com tanto veneno, não conseguem sobreviver.

SERVIÇO

Para complementar as informações com relação aos nomes citados no começo do texto, vai aqui um sumário para facilitar a compreensão, os dados aqui usados são fruto de uma cartilha realizada pela ORGANIS:

Alimentos Orgânicos: produzidos sem o uso de fertilizantes químicos, agrotóxicos, conservantes, aditivos ou transgenia (mudança genética no alimento).

Alimentos Convencionais: aqueles encontrados em maior quantidade em nosso dia a dia. Frequentemente se utilizam de agrotóxicos, o que pode causar perigo ao meio ambiente.

Alimentos Hidropônicos: alimento produzido em estufas, sem uso de solo. Cultivado em suportes artificiais, recebe soluções químicas para sua nutrição, não são necessariamente orgânicos.

Alimentos Integrais: produzidos a partir de cerais não processados, que preservam suas características iniciais, como as fibras, vitaminas e minerais.

Alimentos Funcionais: são produzidos e tem seu consumo pensado e orientado para benefícios à saúde. Podem, por exemplo, reduzir o risco de doenças crônicas degenerativas.

Alimentos Naturais: provêm de fontes originais da natureza, não são processados ou sintéticos, o que é o caso da maioria dos vegetais, mas ainda assim podem conter uso de agrotóxicos e transgênicos.

Alimentos Diets: modificados para atender a finalidade de não ter açúcar.

Alimentos Lights: apresentam uma redução mínima de 25% em sua taxa calórica, se comparados aos seus equivalentes tradicionais.

Alimentos Transgênicos: sofrem alterações genéticas durante o processo agrícola para maior rendimento ou resistência, por outro lado, estudos já observaram consequências negativas, como o aumento de alergias e redução da eficácia de antibióticos.

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