10 anos da maior catástrofe do Vale do Itajaí

Tragédia deixou marcada a memória de todos que vivenciaram o cenário de dor, inclusive de quem fazia a cobertura do evento

Paôla Fernanda Dahlke, Elisiane Roden da Silva, Yasmim Cristine Eble Cechelero

Considerada como a maior catástrofe natural ocorrida no Vale do Itajaí, a tragédia climática de 2008 completa 10 anos agora em novembro e deixou marcada a memória de todos que vivenciaram aquele cenário devastador. Foram mais de 5 mil desabrigados, a chuva, mas principalmente os deslizamentos de terra, mataram 135 pessoas de 60 cidades do estado de Santa Catarina. Em meio a esse caos todo, os meios de comunicação da região, em especial o rádio, tiveram um papel fundamental na veiculação das informações para a população afetada.

Confira aqui uma galeria com algumas fotos impressionantes da tragédia.

Os profissionais do rádio acompanhavam todas as informações oficiais sobre nível de chuva por meio do Centro de Operação do Sistema de Alerta (CEOPS). Este é o órgão que passa informações oficiais e com credibilidade sobre a chuva e nível das barragens de contenção de cheias localizadas no Vale do Itajaí. Mas, nem o próprio CEOPS imaginava o desastre que estava por vir. Acompanhe a entrevista com o professor Dirceu Severo, do CEOPS da FURB.

Acesse aqui o vídeo da entrevista com o Prof. Dirceu Luís Severo do Centro de Operação do Sistema de Alerta (CEOPS)

Durante os dias de maior tensão – 22 e 23 de novembro – em que ocorreram os maior número de deslizamentos, o rádio foi a principal forma de comunicação entre a população e autoridades, já que o jornal impresso não podia ser distribuído (por conta de falta de pessoal e problemas para chegar à casa dos assinantes) e os estúdios das emissoras de televisão estavam alagados ou ilhados. Com cerca de 150 mil habitantes, o Vale do Itajaí estava praticamente sem energia elétrica, e o rádio de pilha -até esquecido – passou a voltar a fazer parte da rotina das famílias e foi a única forma das pessoas receberem notícias e, neste caso em especial, pedirem ajuda.

O radialista Paulo César da Silva, relembra casos de pessoas que ligavam perguntando de familiares que não conseguiam retornar para os lares e deixavam mães e pais aflitos no aguardo ou de pessoas que precisavam de remédios controlados e não tinham acesso a eles, pois as ruas estavam bloqueadas. Ele contou que foram por meio desses relatos que bombeiros eram acionados para levar os medicamentos à casas isoladas e muitas vezes faziam resgates dessas famílias ilhadas.

Depois de resgatadas de helicóptero, as famílias da região eram levadas até o estacionamento do Centro Esportivo do SESI, e assim que desciam, a primeira coisa que faziam, era procurar algum familiar que também estivesse lá. Para o jornalista Alexandre Pereira, que na época trabalhava na TV Legislativa e Rádio Clube de Blumenau, era emocionante o alívio do reencontro. “Nunca vou me esquecer das mães que abraçavam ajoelhadas no calçamento os filhos que recém chegaram ao local. Era uma luta pela vida mesmo, não tinha como não se emocionar”, relatou Pereira.

A tragédia pegou todos de surpresa. Nenhuma autoridade esperava aquele montante de água que destruiu a vida de tantos moradores da região, inclusive os jornalistas não estavam preparados para essa tragédia. “Eu estava no Shopping Neumarkt com minha esposa no dia 22 de novembro, sábado, quando caía uma chuva torrencial e seguranças pediram para deixarmos o prédio o mais rápido possível. Fui para o lado de trás do shopping ver o que havia acontecido. Chegando lá, o que vi era um cenário de guerra. O morro havia deslizado deixando muita lama e destroços pelo caminho. Foi de lá que fiz os primeiros flashes para a Rádio Nereu Ramos, que trabalho até hoje”, relembrou o radialista Paulo César. O caso de Alexandre foi semelhante. Alexandre estava fazendo a cobertura dos Jogos Abertos de Santa Catarina (JASC) na cidade vizinha, em Pomerode, quando na volta encontrou pontos de alagamento. Ainda na rua, também fez os primeiros flashes para a rádio. Dali, os jornalistas seguiram para as emissoras em que se pensou que seria um plantão de poucas horas para tudo se resolver, mas na verdade ficaram dias alojados no trabalho.

Sem preparos, colchonetes foram as camas para muitos jornalistas naqueles dias. As redações e estúdios funcionavam como alojamento durante a cobertura. Além da falta de estrutura para o alojamento, os meios de comunicação também sofreram no acesso às informações por conta do difícil acesso pelas vias, mas contou com a forte ajuda da população. Quanto à veracidade, a apuração era feita pelos jornalistas dos meios de comunicação, e em análise para a dissertação de mestrado, o jornalista Arnaldo Zimmermann comprovou que nenhuma ligação de nenhum ouvinte foi falsa. “Passei dias ouvindo ligação por ligação e conferindo os relatórios das autoridades, e nenhuma ligação continha alguma informação falsa”, relatou o jornalista em uma roda de conversa sobre os 10 anos da tragédia que ocorreu na Terceira Semana Acadêmica do curso de Jornalismo da Furb. Mesmo com muito menos tecnologias disponíveis comparado aos dias atuais, as coberturas e repasse de informação auxiliaram diversas famílias durante a tragédia.   

Durante a tragédia, o cenário encontrado nas ruas era de guerra. Assim como ruas foram bloqueadas, a transmissão nas rádios foram interrompidas e somente a Furb FM permaneceu ativa durante todos dias. Para continuar informando a população, rádios da região fizeram uma transmissão simultânea diretamente da Universidade Regional de Blumenau (Furb), ponto que não foi afetado diretamente pelas águas pois ela está localizada em um região mais alta e que não sofre com alagamentos. Jornalistas trabalharam em conjunto para a informação chegar à comunidade que esperava por informações. Passados os dias mais preocupantes dos deslizamentos, o rádio passou a ser usado como meio para a população pedir e oferecer doações para a recuperação da cidade de Blumenau. O rádio é considerado até hoje como o principal meio de informação e auxílio durante a tragédia de 2008, que para a maioria dos jornalistas, foi a maior cobertura de tragédia que fizeram em suas vidas.

Para Alexandre e Paulo César, a cobertura trouxe a eles uma bagagem profissional enorme, que só a prática pode trazer. Foram dias fora de casa, em que o jornalista precisava equilibrar o emocional e psicológico e repassar a informação para aquele que precisava. Para eles, o que recompensou todo o esforço que tiveram durantes estes dias, foi o reconhecimento da população que meses depois, ouvintes entravam em contato, agradecendo pelo trabalho feito pelos meios de comunicação e trazendo relatos da ajuda do rádio na vida deles.

A importância do jornalismo nas coberturas de tragédias

O Vale do Itajaí é frequentemente atingido por enchentes, que para essas, jornalistas já estão preparados para fazer a cobertura. Na tragédia de novembro de 2008, a chuva não foi o principal destruidor. Na ocasião, o Rio Itajaí-Açu atingiu em Blumenau 11,52 m, enquanto em outros anos, como de 1880, o rio atingiu 17,1m. O maior problema desta tragédia foram os deslizamentos de terra, provocados pela chuva que caía há praticamente um mês e solo estava muito encharcado provocando deslizamentos com destruição de casas, bloqueio de ruas, queda de pontos e a morte de centenas de pessoas no vale. Em meio a este caos, cabe ao jornalista o papel de informar à população com credibilidade e confiança.

Nós conversamos também com o Sargento Airton César Schimits do Corpo de Bombeiros que nos falou como foi a atuação da equipe há 10 anos. Acesse aqui o vídeo da entrevista com o Sargento Airton César Schimits.

Em meio a era das tecnologias, a informação chega com muita rapidez à população, porém, com a tecnologia, existem as Fake News, em que o jornalista tem como função apurar a veracidade das notícias divulgadas. “Em uma tragédia, o momento é de muita delicadeza em que a população está fragilizada e precisa de informações que sejam verdadeiras. O jornalista faz toda a apuração dos fatos antes de divulgá-los, tornando-o essencial nesses momentos de catástrofes.”, revela o Coordenador do curso de Jornalismo da Furb, James Dadam. Com estes papéis, fica evidente a necessidade do jornalismo de qualidade na cobertura de uma catástrofe como a tragédia de 2008 que afetou a vida de tantas pessoas.

Créditos: Yasmim Cristine Eble Cechelero

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