Blumenau é referência nacional em cirurgia de mudança de sexo

Júlia Gabriela Vanderlinde

Blumenau é conhecida pela maior Oktoberfest fora da Alemanha e se consagrou como a Capital Nacional da Cerveja. Mas o que é pouco conhecido de muitas pessoas é que as terras colonizadas pelos alemães também estão se tornando referência como a capital nacional da cirurgia de mudança de sexo, devido ao trabalho desenvolvido pelo médico José Carlos Martins nos últimos cinco anos.

Os primeiros procedimentos foram realizados em São Paulo, porém após observar que a cidade não era o lugar mais adequado para seu negócio, Dr. Martins decidiu mudar para Blumenau, onde já possuía uma clínica há mais de quinze anos. “São Paulo é uma cidade muito grande. Muitas vezes a paciente vinha de outros lugares e não tinha hotel para ficar ou eventualmente se sentia mal após a cirurgia, e eu comecei a pensar que eu precisava de um lugar para receber, e poupar de qualquer tipo de exposição às pacientes”, revelou o médico. Atualmente as pacientes são atendidas em Blumenau e todas as fases do procedimento são feitas na cidade. A escolha foi motivada pelo fato de que o município é localizado no interior e, por consequência disso, é uma cidade menor e mais pacata, assim as pacientes se sentem mais confortáveis no período em que passam aqui, além do fato de que aquelas que vem de fora para cá contam com acesso facilitado ao aeroporto da região. Atualmente, a maioria das pessoas que vêm até Blumenau para realizar os procedimentos são de outros países, de acordo com Dr. Martins, cerca de 80% de sua clientela não é do Brasil e muitas pacientes procuram a cidade devido à estrutura e cuidado da clínica.

Por ser uma área da saúde ainda em crescimento e que envolve diversas questões sociais, a causa das pessoas transgêneras ainda é alvo de muito preconceito. “Hoje, além de médico, me considero ativista social também. Atualmente estamos promovendo palestras sobre o tema para divulgar a área para a comunidade médica e vários outros grupos. Precisamos pensar que são pessoas que precisam dessa inserção social e que tem esse direito”, avalia o médico.

A pessoa transgênero pode sofrer com mal-estar, estresse e desconforto ao não se identificar com o seu gênero de nascimento e, portanto, necessita de ajuda médica. A cirurgia de readequação de gênero, que é popularmente conhecida por mudança de sexo, não se trata de uma cirurgia superficial, de acordo com Dr. Martins, e envolve um grupo de procedimentos cirúrgicos, como mudança facial, corporal e sexual. Porém, nem sempre todas essas modificações acontecem. “Apenas uma média de cinco por cento quer chegar por fim na mudança de gênero, então é um erro nós pensarmos que toda paciente trans quer ou sonha com a cirurgia de readequação de gênero”, informa Martins.

Sexo biológico, gênero e sexualidade são características distintas. Sexo biológico está ligado ao sexo de nascimento. O gênero pode ser descrito como a entendimento do indivíduo com o próprio corpo. Por fim, sexualidade é com quem a pessoa se relaciona. O médico ainda explica que isso acontece porque o gênero não está relacionado à orientação sexual. “Você pode ter uma paciente transgênero que ela é homossexual, ou seja, ela se interessa por mulheres, geneticamente ou biologicamente ela é homem, mas ela continua se interessando por mulheres. E já operamos muitas que são casadas, têm filhos e vão continuar casadas”, explica Dr. Martins.

Após o paciente decidir pela cirurgia, o passo seguinte é o desenvolvimento do plano de transição. “Se, por exemplo, a paciente chega aqui hoje, e não passou por nenhum procedimento médico, nós desenvolvemos um plano, que é por onde vamos começar as modificações, sejam elas faciais ou corporais”, afirma o médico. Cada transição é única e que cada paciente tem seu tempo para chegar em um resultado final. Antes de iniciar os procedimentos são necessárias várias análises, uma delas é psicológica;. De acordo com o Ministério da Saúde, esse processo deve iniciar pelo menos dois anos antes de a cirurgia ser realizada, para que assim o paciente tenha certeza da sua decisão de mudança. “Avaliamos toda a estrutura de vida do paciente, se poucas ou muitas pessoas sabem dessa outra identidade dele, para que isso não cause um impacto muito grande na sua vida. Precisamos fazer com que a cirurgia seja um mecanismo de inserção social. Então não basta querer, a sua vida precisa permitir isso”, contou Dr. Martins.

A idade mínima para começar o processo é 18 anos, nessa idade os tratamentos hormonais já iniciam, para que então aos 21 anos, de fato, a cirurgia possa acontecer. Logo após finalização dos procedimentos durante um ano ainda deve ser feito acompanhamento do paciente. Desde 2008, a cirurgia também é feita pelo SUS e atualmente no país estão habilitados 11 serviços pela rede pública e foram realizadas até abril deste ano 474 procedimentos financiados pelo ministério público.

Em Blumenau, a tendência é que os números aumentem ainda mais ao todo já são mais de 200 pacientes operados na cidade, “Vamos permanecer aqui. Pretendemos aumentar nossa equipe e cada vez mais operar pacientes, principalmente aqui do Brasil”, conclui o médico.

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