Especialistas apontam três possíveis soluções para o trânsito caótico de Blumenau

Em Blumenau, no último ano, mais de sete mil novos veículos foram registrados. Em contra-partida, número de novos habitantes é de um pouco mais de quatro mil pessoas, quase a metade

Edemir Júnior

O trânsito em Blumenau está cada vez mais caótico. Trajetos simples, que uma vez duravam de 15 a 20 minutos, hoje levam quase uma hora. Não somente nos chamados horários de picos, entre 6h30 às 8h e entre 17h30 às 19h, mas também nos demais horários. Somente no período após as 20h que, geralmente, as ruas estão mais vazias.
 
Segundo o IBGE, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas, em 2018, a população de Blumenau é de 352.460 habitantes e o número de veículos, conforme estatísticas do Detran-SC, chega a 260.019 unidades, entre automóveis, motos, utilitários, ônibus e outros tipos de veículos. Estes dados nos leva ao número de aproximadamente 0,71 veículos por habitante, um número bastante elevado. No entanto, há um dado ainda mais preocupante: de acordo com números do Detran-SC, em setembro de 2018, Blumenau tinha 260.019 unidades de transporte, entre automóveis, motos, utilitários, ônibus e outros tipos de veículos. Para comparação, no mesmo período do ano passado, Blumenau tinha 7.009 unidades de transporte a menos, ou seja, 253.010 unidades. 

Em 2016, também no mesmo período, eram 248.257. É um número bastante alarmante, visto que o número de veículos, incluindo todos os meios de transportes, está crescendo vertiginosamente a mais que a população, a qual tinha em 2017, cerca de 348,5 mil habitantes e hoje já passa de 352 mil pessoas. Neste contexto, significa que em um ano a cidade aumentou sua população em cerca de quatro mil pessoas, enquanto isso, o número de veículos aumentou em mais de sete mil unidades, quase o dobro. É quase que para cada pessoa que entra na cidade, dois veículos entram junto. Se hoje já se tem um trânsito caótico, a tendência para os próximos anos é ir piorando ainda mais.

Foto: Sávio James Pereira

Para Christian Krambeck, Arquiteto e professor da FURB, a única forma de amenizar os problemas no trânsito da cidade é mudar a mentalidade das pessoas: “É uma quantidade absurda de carros, uma das maiores do Brasil e não adianta, temos que mudar a mentalidade de projetar, planejar e construir cidades somente para os carros, é igual enxugar gelo: não funciona. Temos que mudar a mentalidade, mudar o modelo político, modelo de cidade e começar a construir o conceito de cidade para as pessoas, que significa priorizar o transporte não motorizado, cicloviário e transporte coletivo de ônibus”.  Ainda segundo Christian, as vias blumenauenses já vêm mudando suas configurações com as recentes obras: “Já está sendo feito o plano de segurança viário também, que é positivo. Isso significa dentro de um novo planejamento, tirar espaço dos carros, para dar para o ônibus, para o ciclista, para o cadeirante e para o casal de namorados passear” explica Christian.
 
Esse novo plano de segurança viário o qual Christian se refere, já está incluso nas novas vias que estão sendo feitas em Blumenau e nas que já foram entregues à comunidade, como o Complexo Viário do Badenfurt, revitalização e reurbanização da rua General Osório e o prolongamento da rua Humberto de Campos, inclusive, faltando concluir apenas a parte final, entre as ruas Marechal Deodoro e Alberto Stein, onde ambas as vias fazem parte do novo acesso Oeste à cidade, como conta Marcelo Althoff, presidente do SETERB (Serviço Autônomo Municipal de Trânsito e Transportes de Blumenau): “todo o trânsito pesado que acessa a cidade através da Itoupava Norte, vindo da região oeste do estado, como Timbó, Indaial, Rio do Sul, hoje ele necessariamente tem que passar por essa região complicada, que é a itoupava norte. E com esse acesso completo, através do Complexo do Badenfurt, passando pela Humberto de Campos e com acesso direto à rua Sete de Setembro, a gente tem praticamente uma nova via expressa na cidade”.

Foto: Sávio James Pereira.

Já o acesso Leste, para quem vem do litoral pela rodovia Jorge Lacerda, também vêm tendo melhorias, com as obras de revitalização da República Argentina e o binário que está sendo construído na rua Chile, que também vão dar uma nova dinâmica para a cidade. Todas as ruas, em algum momento, seguem para região central da cidade, elevando o fluxo de veículos. Para Althoff, em um futuro próximo, a cidade pode copiar o modelo exercido em São Paulo: “Cidades grandes, do tipo de São Paulo, já adotaram algumas medidas, como o rodízio de carro. Não quero dizer que isso esteja em pauta em Blumenau, mas quem sabe no futuro próximo haja sim uma restrição em algumas áreas, em determinados horários”. 

Alexandre Gevaerd, secretário de Planejamento Territorial de Gaspar, diz que o ideal para Blumenau é descentralizar o volume de veículos na área central, com a construção de uma via entre os bairros Garcia e Velha: “A grande obra que a cidade precisa ter e ainda não tem, é a ligação velha-garcia, que vai descentralizar o trânsito na cidade. É claro que é uma obra delicada, impactante, em vários aspectos. Paralelo a isso, a cidade continua crescendo muito na região central e perto do centro, com isso a densidade de veículos é gigante. Hoje, o Victor Konder, que antigamente não era tão visada, é uma região que não para de crescer. A questão é repensar a cidade e descentralizar”. 

Transporte Público melhora, mas ainda necessita de upgrades
 
O transporte público de massas é apontado por vários especialistas como a solução para a diminuição do trânsito em cidades do porte de Blumenau, onde ainda não existe demanda para instalação de Metrôs, por exemplo. Com a chegada da BluMob, empresa paulista que começou a atuar na cidade desde julho de 2017, a situação nos últimos tempos vem melhorando, mas ainda está abaixo do necessário. Passagens caras, como R$4,05, constantes atrasos e poucos horários em algumas linhas, principalmente nas consideradas circulares, que não fazem o trajeto de um terminal para o outro e ônibus sem ar-condicionado, sendo que no verão, a cidade costuma ferver, são as principais queixas dos usuários do transporte coletivo. “O wifi nos ônibus em Blumenau não funciona, são raros os momentos em que a internet vai. Para mim, seria mais interessante ter ar-condicionado, já que em Blumenau faz bastante calor”, opina João Pedro Faral, acadêmico de Administração.
 
Já Karin Przygoda, estudante de Engenharia de Alimentos, ressalta que os ônibus são de boa qualidade, mas pecam na questão do horário: “Os novos ônibus são bons e a passagem acaba não pesando tanto no bolso, por eu pegar meia (Karin usa o cartão estudante). Mas o pior problema do transporte público é a falta de horários, porque quando eu vou para a faculdade, só tem ônibus às sete horas e, se eu perder esse ônibus, o próximo é somente às 7h40. Isso é só um exemplo, mas eu acho que se fosse mais rápido andar de ônibus, teriam mais pessoas que utilizariam esse meio de transporte”.

Foto: Sávio James Pereira.

Tentando dar uma maior agilidade para o transporte público, o presidente do SETERB, Marcelo Althoff, diz que melhorias já estão sendo tomadas, visando o bem-estar da população que depende justamente do transporte de massa: “Frota nova – hoje mesmo (17) acabei de assinar a vinda de mais 25 ônibus novos e corredores de ônibus exclusivamente para o transporte público da cidade, podem ser a explicação. Estamos construindo um novo corredor na rua Itajaí, que vai auxiliar bastante numa área bastante crítica. No trecho do terminal da proeb até o trevo da velha também vamos tentar instalar um novo corredor de ônibus, pois as vezes os ônibus demoram mais de 10 minutos nesse pequeno espaço”. 

Segundo dados do próprio Marcelo, em 2017,  a média brasileira foi de uma redução de 17% no número de usuários do transporte público. Em Blumenau, no primeiro ano de operação definitiva da BluMob, de julho de 2017 a junho deste ano, houve uma redução de apenas 6%. É uma queda, mas ainda é muito menor que a média nacional, o que pode ser um indicativo de que o transporte coletivo vem melhorando. 

“Transporte coletivo é o maior trunfo, sem dúvidas. Vem tendo melhorias nos últimos tempos, com a integração dos terminais, corredores exclusivos, mas ainda é um tabu. Em blumenau, cerca de somente 30% das viagens são de ônibus e 55% de automóvel. É muito alto. Como fazer pra esse pessoal deixar o carro em casa e andar de transporte coletivo? O ônibus não atrai as pessoas de alto poder, médio poder”, ressalta Alexandre Gevaerd.

Alternativa saudável ao trânsito, uso das bicicletas vem crescendo

Acervo pessoal: Miguel Ferrari.

O uso das bicicletas em Blumenau vêm se tornando uma das opções mais viáveis para encarar todo o trânsito na cidade. Cada vez mais, ciclovias vêm sendo instaladas nas principais vias do município. Recentemente, com a inauguração do prolongamento da rua Humberto de Campos, os blumenauenses ganharam mais uma importante via para ir ao trabalho ou à escola de bicicleta. Esse uso se acentuou ainda mais em junho desse ano, na greve dos caminhoneiros. Sem gasolina nos postos, as pessoas se viam na obrigação do uso da bicicleta, caso quisessem sair de casa. Com essa situação, as pessoas perceberam que visitar algum parente ou ir até o centro da cidade de bicicleta, não é tão difícil. “Os usuários de bicicletas são mais dispostos e criativos, já que essa ação contribui para o bem-estar. Por exemplo, se você estiver dentro do carro indo para o trabalho, não pode sentir o cheiro da cidade e ver determinado tipo de flor que está florescendo, com bicicleta isso se torna possível, você contempla as paisagens com outros olhos” reflete Giovani Rafael Seibel, Coordenador geral da Associação Blumenauense de Ciclovias (ABC).

Diante disso, atualmente em Blumenau, tem-se cerca de 43 quilômetros de ciclovias e ciclofaixas ao longo de toda cidade. No entanto, essas vias para os ciclistas são bastante segmentadas, não havendo ligações na maioria delas, obrigando o ciclista a ainda dividir a rua com os carros em muitos momentos. Para um morador do bairro Água Verde ir ao centro de bicicleta, por exemplo, terá que em alguns trechos em que ainda não há ciclovias, como na rua General Osório, onde o fluxo de veículos é bastante grande, compartilhar seu espaço com os veículos. Porém, nos próximos anos, segundo a prefeitura de Blumenau, com as entregas de todas as obras viárias na cidade, deve-se ter 145 quilômetros de ciclovias e ciclofaixas, mais de três vezes do número atual, o que vai estimular ainda mais o uso de bikes para os blumenauenses.

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