Liberdade que sai da cabeça

A mudança de hábitos representada através dos cabelos

Taynara Schemes

Em meio ao solitário e vasto ambiente pré-histórico, os homens das cavernas buscavam capturar e arrastar as mulheres pelo cabelo. O símbolo de conquista tão retratado em filmes e desenhos pode não passar de um mito, mas sua representação do cabelo como símbolo de sedução e aliciação é evidente.

Milhares de anos depois, na tradicional Inglaterra do século XVII, a brava duquesa Georgiana de Devonshire fazia uso de acessórios e grandes perucas para demonstrar toda a sua rebelde personalidade através do cabelo e de suas roupas. Em uma realidade marcada pela dominação masculina, a duquesa conhecida por revolucionar a moda buscou em seus penteados, a forma de expressar suas ideias e convicções.

Já nos anos 70, o cabelo toma a posição de resistência política. O grupo de negros estadunidenses e paramilitantes Pantera Negra, usava o cabelo volumoso e sem cachos definidos, conhecido como black power e o punho fechado como símbolos do movimento. Ambos simbolizam características dos negros rejeitadas pela sociedade da época e a luta pelo fim do racismo, como mostra o artigo publicado por Bruno Vinícius de Morais nos anais do XIX Encontro Regional de História “Estes seriam valores de destaque, pois, podemos encontrar pessoas ou grupos partidários do Orgulho Negro que não reivindicam uma herança africana, mas a valorização do cabelo crespo, os lábios grossos e a pele negra parecem onipresentes em todos os grupos”, escreve o mestrando de História e Culturas Políticas da Universidade Federal de Minas Gerais.

A trajetória do cabelo como forma de resistência, liberdade e sedução desenrola-se até o presente. Cada vez mais, movimentos feministas e de autoaceitação, pregam a busca pelo amor às formas naturais do corpo e do ser feminino, principalmente através do cabelo.

Uma pesquisa de 2017 feita pelo Google BrandLab, programa focado em acelerar estratégias digitais, mostra que pela primeira vez as busca por cabelos cacheados no Google superou as buscas por cabelos lisos, chegando ao crescimento de 232% em relação ao ano anterior. Mas a pesquisa também traz dados preocupantes, 1 em cada 3 mulheres disse já ter sofrido preconceito por causa do seu cabelo e 4 em cada 10 mulheres assumiu já ter sentido vergonha por ter cabelos cacheados.

A mudança, segundo a pesquisa, está acontecendo principalmente entre jovens de 18 à 24 anos, já que 24% delas reconhecem seu cabelo como cacheado. Assumir os cachos é uma tarefa mais complexa para mulheres mais velhas.

Regina Cardoso, 35, aprendeu a trançar ainda quando criança, com a chegada da vida adulta teve que usar o talento desenvolvido como ofício. Ao se tornar mãe, Regina passou a buscar novos penteados criativos, já que sua filha não costuma aprovar os cabelos que tem e gostaria que fossem lisos. “Nosso cabelo é diferente, nos obriga ser criativa”, conta a cabeleireira negra especialista em penteados afro.

O mesmo aconteceu com Yoana Carmo, 23. A estudante de Jornalismo teve durante sua infância uma ótima relação com seu cabelo cacheado. Como sua mãe também possuía o cabelo parecido, a pequena Yoana não via problemas na forma como seus fios se moldavam. A aversão ao seus cachos começou na adolescência, na época de escola quando estava rodeada de amigas loiras com o cabelo liso. A estudante conta que, nessa fase de sua vida, o cuidado com os cabelos não era algo que ela possuía prática. “Eu não conseguia cuidar do meu cabelo e ele já não ficava mais como quando criança, eu entrei em conflito com a minha aparência e ouvia diariamente as pessoas dizendo que eu deveria alisar meu cabelo, que ficaria mais fácil de cuidar”, relembra Yoana.

Parte da rejeição sofrida pelos fios cacheados vem de um grande histórico de racismo, mas então como mulheres brancas como Yoana sofrem os efeitos da desaprovação?

Para a jovem, essa oposição tem relação com o padrão de beleza imposto socialmente, principalmente nas mídias que reforçam a construção desta imagem. “Tudo que a gente vê na televisão brasileira, em novelas e comerciais, uma vez ou outra tem uma mulher que tem o cabelo diferente, mas qualquer coisa que foge do cabelo liso loiro ou castanho já encarado de outra forma”, supõe Yoana. Atualmente sua relação com o seu cabelo ultrapassa o limite do contato pessoal e chega a tomar caminhos espirituais, causando sentimentos que passeiam entre o amor e a insegurança.

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