A alegria e a dor de ser imigrante em Blumenau

Angolano, haitiano e iraniano relatam a experiência de viver na cidade da Oktoberfest

Júlia Henn

Foi no segundo semestre de 1850 que o Doutor Hermann Bruno Otto Blumenau e mais dezessete colonos alemães chegaram a uma área de terra nas margens do rio Itajaí-Açu. A área em breve se tornaria a cidade de Blumenau, que, hoje em dia, é composta por uma população diversa que abraça imigrantes e descendentes de variadas etnias.

Foi na intenção de conhecer mais sobre essas pessoas que decidi procurá-los: imigrantes vindos de países que não são conhecidos em Blumenau e região, mas que vivem aqui e contribuem para a identidade da nossa cidade.

Procurei a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social (Semudes) de Blumenau, para perguntar se não há nenhum órgão ou serviço de apoio ao imigrante dentro do município. A resposta foi negativa. A maioria dos casos que procuram assistência são transferidos para unidades de atendimento em Florianópolis. Essa ausência de suporte na região pode ser justificada pelo fato de que não houve nenhuma grande onda oficial de imigração para Blumenau.  

A questão é que, independentemente de haver ou não apoio de órgãos públicos, os imigrantes estão aqui, construindo a sua nova vida. Conversamos com três deles, vindos de lugares diversos, de realidades contrastantes, para tentar entender a história de cada um.


ANGOLA

Quando sentei para conversar com Vagnaide Tchiloia, esperava aprender mais sobre um país do que sobre uma construção social. Me enganei. A partir do momento em que perguntei “não precisa responder se não quiser, mas como você percebe o racismo em Blumenau?” e ele respondeu com a seguinte frase: “eu vou adorar falar sobre isso”, percebi que nosso diálogo tomara um rumo importante, principalmente em vista dos recentes acontecimentos em nosso país. 

Mas antes uma apresentação: Vagnaide Tchiloia é um jovem angolano, de 25 anos, nascido na cidade de Lubango, que fica a 898 km da capital do país, Luanda. Tchiloia chegou a Blumenau em 2011, por meio de uma bolsa de estudos para graduação. O estudante de engenharia de telecomunicações relata que não hesitou em aceitar a oportunidade de vir ao Brasil por já conhecer o país por meio da televisão, pois parte da programação televisiva transmitida na Angola vem da televisão brasileira.

Ao conversar sobre comida, descobri que a gastronomia brasileira é considerada sem graça pelo angolano. “Falta tempero”, diz enquanto tenta disfarçar o riso. Falando sobre seus estudos, Vagnaide revela que completará sua graduação ao final deste semestre e que, depois de muita deliberação, decidiu voltar para sua terra natal após a formatura. “Por quê?”, questiono. Ele explica que apenas percebeu que era melhor voltar.

Então, faço a pergunta com a qual iniciei este relato: como o estudante angolano percebe o racismo na cidade de Blumenau? O assunto levantado gera quase meia hora de conversa. 

O jovem comenta abertamente sobre sua impressão de como racismo e suas vítimas são tratadas no país e, pricipalmente, em Blumenau. “O racismo é tratado com naturalidade, sempre tem uma justificativa (…)”, afirma Vagnaide, que também aborda em seu comentário a questão do racismo estrutural e da influência das relações de poder neste cenário: “O chefe branco pergunta para a empregada negra se ela já sofreu racismo naquela casa. Ela diz que não. Isso não significa que ela nunca sofreu racismo, mas sim que ela não tem condições de responder livremente a pergunta.” 

Mas, talvez, o momento de maior impacto em seu discurso tenha sido a descrição dos efeitos que o racismo causa em quem convive com ele desde o nascimento, e em quem é inserido no meio racista posteriormente. Vagnaide conta que, para ele, o racismo é uma realidade que só veio conhecer no Brasil, e percebe as consequências que este preconceito causa na vida de quem lida com ele desde o berço. “Eu tenho a minha liberdade de ir e vir, de frequentar os lugares que eu quiser e me sentir bem assim; mas percebo que os efeitos na autoestima de outros negros que escutam xingamentos desde criança impedem o desenvolvimento dessa liberdade.”

HAITI

De alguém que está se preparando para ir embora de Blumenau, passamos direto para uma pessoa que pretende ficar aqui por um bom tempo. Moncler Leonard, 23 anos, é haitiano, nascido na comuna de Ganthier, a 30 km de Porto Príncipe. Nossa conversa foi baseada em gestos, palavras simples e uma miscelânea de idiomas. Apesar de Moncler falar fluentemente crioulo e francês, o jovem ainda está aprendendo a falar português e entende um pouco de inglês. 

Talvez pelas barreiras linguísticas, pude perceber seu nervosismo e timidez de início, inclusive perguntando por que eu desejava falar com ele e a razão das perguntas serem “pessoais”, de certa forma. Porém, após alguns minutos de conversa, o diálogo fluiu com mais naturalidade.

Quando questionado sobre como chegou a Blumenau, Moncler relata ter vivido uma jornada antes de chegar a cidade, passou pela República Dominicana e pelo Equador, lugares que sua família desaprovava, até fixar residência na região do Vale do Itajaí, três anos atrás. 

O jovem haitiano mora com um amigo e com a irmã, que acabou de chegar do Haiti. A intenção é trazer a família toda mas, segundo o relato, a passagem é muito cara, chegando a cinco mil reais. “Por que você saiu do Haiti?” pergunto, recebendo uma resposta simples, mas significativa: “Não gosto de lá. É ruim.” 

Após uma indagação minha com relação a qualidade de vida em Blumenau, ele responde que tudo aqui é melhor. Tudo, menos a política. “A política no Haiti e no Brasil é igual”, afirma o jovem, “… um monte de corrupto.”

Moncler trabalha há um ano e nove meses em uma empresa de comércio de metais e revela ter feito várias amizades na cidade, tanto dentro quanto fora da empresa, mantendo uma vida social ativa.    

IRÃ

Com mais de 2500 seguidores no Instagram, o Manoosh é um food truck fixo em Blumenau, conhecido por quem costuma andar pelos arredores das ruas Joinville e Antônio da Veiga. Seu criador é o personagem principal desta história: Maziyar Karimi Malekabadi, 29 anos, iraniano, nascido na cidade de Isfahan, a 446 km de Teerã, capital do país. 

Não haveria lugar melhor para conversarmos do que no próprio Manoosh, então, debaixo de chuva, porém protegidos pelo toldo erguido por cima das mesas do local, iniciamos nossa entrevista. 

Maziyar sempre gostou de viajar, tendo visitado e morado em países da Europa, como a Itália, e da América do Sul, como a Venezuela. Formou-se em Administração, por vontade da mãe, mas jamais pretendeu seguir a profissão. Sua vontade de ver o mundo acabou trazendo-o para o Brasil em 2015, mais especificamente para São Paulo, onde viveu por cerca de seis meses, até decidir que não gostava do lugar: “muita violência, muita sujeira, muita gente na rua… Não queria mais cidade grande.”

Como não conhecia bem o país, recorreu a internet para procurar sua nova morada. Digitou: “melhores cidades para viver Brasil” e deixou o algoritmo da ferramenta de busca fazer o seu trabalho. Na época, trabalhava em uma loja e deixou uma lista com algumas cidades que apareceram na pesquisa à disposição dos clientes. “Queria que circulassem três cidades que gostassem na lista, mas como não sabia falar bem português, não me entendiam, então meu chefe explicava o que eu queria.” 

Por fim, as três cidades mais votadas foram Florianópolis, Joinville e, claro, Blumenau. O jovem quis conhecer as três antes de se fixar em uma, mas ao visitar a sede da Oktoberfest, decidiu ficar.

Quando questionado sobre sua impressão das pessoas na cidade, Maziyar relata que sempre ouviu falar que o povo do sul era mais fechado, mas que a realidade provou o contrário. Afirma ter conhecido pessoas muito boas, que lhe ajudaram em sua trajetória e nunca se sentiu discriminado. Até precisar de um emprego.

O iraniano revela que estava disposto a trabalhar com qualquer área que pudesse, mas não recebia uma chance. “Não me davam um emprego, achei que era a barba, porque eu tinha a barba bem cheia. Tirei a barba, ainda não consegui emprego. Por fim, criei o food truck.”

Pergunto se pretende ficar em Blumenau ou voltar para o Irã. A resposta não deixa dúvidas: “Sempre fiquei um bom tempo em cada lugar. Ainda quero ficar aqui por muitos anos.”

 “E o Manoosh?”, pergunto para finalizar; “o plano é abrir uma franquia”, responde com um sorriso no rosto.  

Escrever estes relatos e receber permissão para testemunhar histórias de vida são coisas que podem afetar a maneira de olhar o mundo. Abrir-se para o que o outro sente, deixar a empatia tornar-se o sentimento dominante, é uma experiência que enriquece não apenas o jornalista, mas o  ser humano por trás do teclado. Espero que a missão jornalística de quebrar estereótipos e derrubar preconceitos possa ser atingida através deste texto. 

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